Plágio
Plágio, segundo o dicionário Aurélio, se trata de “Assinar ou apresentar como seu (obra artística ou científica de outrem)”. Sua origem etimológica advém do grego “plagios”, que significa “trapaceiro”, “obliquo”.
O plágio nada mais é que o ato de apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem colocar os devidos créditos de autoria. O plagiador apropria-se indevidamente da obra intelectual alheia, assumindo assim sua autoria. É uma prática bastante comum em diversos tipos de trabalhos e produtos, mesmo às vezes sendo feita de maneira inconsciente.
Há vertentes que caracterizam que uma pessoa que copia o trabalho alheio sem autorização e sem citar tal fonte apenas o faz por incapacidade de fazer, ela mesma, a sua própria obra. Outras discordam veemente desse pensamento, como é o caso do bilionário Bill Gates que, parafraseando (ou seria plagiando?) Pablo Picasso, declarou certa vez que: “Os mais inteligentes copiam, só os gênios roubam” (da frase original “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”).
Além dessa diferença de opiniões, há também uma certa dificuldade em caracterizar e diferenciar o que é plágio, paródia ou simplesmente uma homenagem. Ao contrário do plágio, a paródia é uma obra derivada de outra anterior, à qual normalmente faz alguma crítica com humor, sem negar o crédito do autor da primeira obra. Já a homenagem é um termo completamente vago, que pode até contar com uma certa malícia do autor em se aproveitar de uma cena ou característica própria de um trabalho diverso e acrescentar ao seu, como forma de homenagear (com ou sem aspas) esse autor. Isso quando não é alegado a questão da “incrível” coincidência.
Vários são os trabalhos frutos não somente de uma reciclagem de outros trabalhos já criados, mas também com detalhes que caracterizam o plágio, o que acaba gerando polêmica e quase sempre muita discórdia entre o criador e o plagiador. O plágio se faz presente em produtos tecnológicos, jogos eletrônicos, abertura de novelas, campanhas publicitárias, desenhos animados, e principalmente no âmbito musical, sobretudo aqui no Brasil. Claro que não estamos considerando versões devidamente autorizadas como as feitas por exemplo pela antiga dupla Sandy Junior, que regravaram praticamente boa parte do repertório de Laura Pausini em versões aportuguesadas ou com reaproveitamento do ritmo musical. Ou mesmo regravações de filmes, como o clássico filme de terror “The Ring”, regravação do até então desconhecido filme japonês “Ringu”, que por sua vez é uma adaptação de um romance literário de mesmo nome.
No Japão, cujo mercado de quadrinhos em 2010 foi responsável por 40% de toda a produção impressa no país, além da existência nesse período de mais de 400 estúdios de animação com uma renda anual de mais de um 1 bilhão de dólares, o plágio tem consequências severas e desastrosas que vão desde a suspensão da obra e a retirada imediata do mangaká (o autor) do mercado de trabalho.
Não incomum que diversos mangakás foram e são acusados de plágios, desde pequenos detalhes alheios inseridos como fonte inspiradora em seus trabalhos quanto a cópia absurda e descarada de diversos elementos e concepções da obra alheia.
Takehiko Inoue, o autor de Slam Dunk, chegou a ser acusado de copiar imagens de jogadores da NBA para uso em seu mangá. O mesmo alegou que Slam Dunk era um reflexo de suas experiências com o basquete, incluindo suas lembranças, junto a fotos de revistas e cenas exibidas na TV dos jogos de basquete norte-americanos.
O próprio Inoue, pouco antes desse curioso episódio, teve duas de suas obras plagiadas, quanto a determinados elementos. Trata-se de Eden no Hana, de Suetsugu Yuki, que plagiou elementos de Slam Dunk e REAL. Como consequência, a Kodansha, editora responsável por Eden no Hana, declarou na época em que o plágio foi descoberto (em 2005) a descontinuidade da obra, sendo retirada de todo mercado junto a outros títulos criados por Yuki. O mais curioso é que Eden no Hana serviu de base para a novela coreana One Fine Day, cuja produção alegou a compra dos direitos de adaptação do mangá.
Diversas outras obras de grande público no Japão sofrem com as mais diversas acusações de plágio, na grande maioria com um certo fundamento. Figuram aqui obras como Samurai Deeper Kyo, Flame of Recca, Black Cat, Rave Master, 666 Satan, entre muitas outras. O caso de 666 Satan é curioso: acusado de plagiar Naruto (e vice-versa), o criador de 666 Satan, Seishi Kishimoto é nada menos que irmão gêmeo de Masami Kishimoto, criador de Naruto! Ambos alegam que o fato de terem crescidos juntos influenciou e muito em seus trabalhos, onde cada um admite inspirar-se no trabalho do outro.
Criado em 1984, Dragon Ball ao longo dessas décadas contou com as mais diversas homenagens, servindo como fonte de inspiração para as mais diversas obras e sobretudo reciclagem de suas idéias. Não incomum as homenagens de mangakás consagrados como Masakazu Katsura (Video Girl Ai), que desenhou a imagem de Goku em uma Shonen Jump lida pela protagonista em um determinado capítulo da série ou mesmo as declarações positivas de muitos mangakás renomados, como Yoshihiro Togashi (Yu Yu Hakusho), Eichiro Oda (One Piece), Tite Kubo (Bleach) e Masami Kishimoto (Naruto) do quanto que Dragon Ball influenciou no estilo de suas obras.
Porém, isso não impediu que a obra máxima de Toriyama fosse sumariamente plagiada em um dos casos mais notórios sobre o assunto e um dos primeiros onde a internet teve um papel crucial. Trata-se de Cross Hunter, mangá criado por Kai Makoto baseando-se no jogo de mesmo nome para o portátil Game Boy Color.
Cross Hunter apareceu pela primeira vez na edição de novembro de 2000 da revista mensal Comic BomBom, publicada pela Kodansha. O que era para ser mais um mangá do gênero Shonen, passou a ser acusado pelos leitores de ter plagiado Dragon Ball, com aspectos absurdamente semelhantes, tanto quanto na posição de elementos ou cenas e até mesmo no uso de onomatopéias. Em resposta, Kai Makoto alegou que era impossível a criação de um mangá Shonen que não possuísse as características criadas ou utilizadas em Dragon Ball.
Na época, diversas imagens comparando as duas obras foram divulgadas e discutidas em sites e fóruns da internet. Acabou que Cross Hunter foi encerrado prematuramente em outubro de 2001, sem qualquer alarde, que não fosse o fato de estar encerrando ali uma obra vergonhosa e tão maciçamente desaprovada e denunciada pelos leitores.
Abaixo, algumas das imagens de Cross Hunter, devidamente comparadas e que explicam tamanho sentimento de repulsa à obra e ao seu criador:


















































Não cabe aqui analisar as inspirações que Akira Toriyama teve ao criar Dragon Ball em uma tentativa vã em minimizar o exposto. Independente desta ter tido forte influência principalmente de Hokuto no Ken e Kinnikuman, a obra de Toriyama foi fundamental para tudo o que veio depois, sendo verdadeiramente um divisor de águas do gênero Shonen na época, contribuindo não só pela transformação e redefinição do gênero como também criou um paradigma de sucesso global nunca antes imaginado. E, conforme exposto anteriormente, existe um grande abismo entre a inspiração com o intuito de perpetuar um gênero específico e o plágio desqualificado na reprodução de cenas e ações específicas de um autor. E, diante de tantas imagens comparativas, não resta dúvidas da mediocridade de Cross Hunter e de seu autor.