Análise – Fighting Force Collection
Toda criança, adolescente ou até marmanjo que frequentava locadoras de videogame nos anos 90 e no começo dos anos 2000 com certeza conheceu Fighting Force. Lançado em 1997 para Windows, PlayStation e Nintendo 64, o jogo ficou muito popular, principalmente no PlayStation, por levar aos consoles domésticos o espírito dos jogos de briga de rua dos fliperamas, então em plena evidência.
Seu principal diferencial era transportar esse gênero tradicionalmente 2D para o 3D, algo ainda raro e experimental naquele momento. Fighting Force surgiu exatamente na transição entre duas eras, quando os jogos em 2D começavam a perder espaço e os jogos tridimensionais ainda aprendiam como se mover e funcionar de forma fluida. A proposta era simples e direta, pegar a estrutura clássica dos beat’em ups e adaptá-la ao espaço tridimensional sem grandes invenções. Mesmo com limitações evidentes, o resultado funcionou o suficiente para marcar época, conquistar público e se tornar presença constante nas locadoras, ainda que nunca tenha sido consenso como um grande clássico do gênero.
É justamente esse jogo, junto de sua continuação problemática, que retorna agora em Fighting Force Collection, uma coletânea lançada no dia 23 de janeiro de 2026 para PC, PlayStation 4, PlayStation 5 e Switch pela Limited Run Games, com desenvolvimento técnico da Implicit Conversions. O pacote reúne Fighting Force e Fighting Force 2 em suas versões originais de PlayStation 1, com emulação estável e alguns recursos modernos. A proposta da coletânea não é reescrever a história da série nem reabilitar sua reputação. Ele é nada mais que um relançamento funcional, que coloca dois jogos antigos para rodar corretamente nos sistemas atuais, adicionando salvamento a qualquer momento, rebobinar ações e ajustes visuais, mas sem muitos investimentos.
A estrutura do jogo original, como já dito, é bastante simples. O jogador escolhe entre quatro personagens, cada um com um estilo de combate bem definido. Hawk e Mace são mais equilibrados, Ben é extremamente forte e lento, enquanto Alana aposta em velocidade e agilidade. Nada disso é complexo ou exige aprendizado profundo. Em poucos minutos já é possível entender como cada personagem funciona e seguir adiante sem grandes dificuldades.
O combate é direto e intenso, baseado em socos, chutes, agarrões e um ataque especial que consome parte da vida. Não existe botão de defesa, o que obriga o jogador a se movimentar constantemente para não ser cercado. Isso torna algumas situações mais difíceis, mas também mantém o ritmo acelerado e agressivo. Fighting Force nunca teve a pretensão de ser estratégico ou técnico demais, ele só queria que o jogador avançasse, batesse e apanhasse dentro da lógica mais pura e simples do gênero de briga de rua. O grande diferencial do primeiro jogo está na interação com os cenários. Muita coisa pode ser usada como arma. Barras de ferro, caixas, armas de fogo, granadas e até partes de carros entram na pancadaria. Isso explica um pouco por que Fighting Force marcou tanta gente.
Os cenários são relativamente abertos e oferecem caminhos alternativos, o que muda a ordem das fases e incentiva a rejogabilidade. Mesmo com a repetição inevitável, o jogo consegue manter o interesse variando inimigos, ambientes e desafios. Foi justamente esse sucesso que levou ao desenvolvimento de uma continuação. E, infelizmente, é aí que a série se perde.
Se o primeiro Fighting Force funcionava bem por saber exatamente o que queria ser, Fighting Force 2 errou e muito ao tentar ser muitas coisas ao mesmo tempo. Desde os primeiros minutos, fica claro que houve uma mudança radical de direção. Sai o beat ’em up clássico e entra uma mistura confusa de ação em terceira pessoa, espionagem e tiro, claramente influenciada por jogos populares do fim dos anos 90, como Metal Gear Solid e Syphon Filter. No papel, a ideia até parece interessante. Na prática, quase nada funciona direito.
A primeira decisão estranha é limitar o jogo a apenas um personagem jogável, Hawk Manson. A variedade do primeiro título desaparece, assim como o modo cooperativo, que era a coisa mais legal pra quem vivia nas locadoras jogando com os amiguinhos. O resultado é uma experiência mais solitária e nada divertida. O controle também piora, adotando uma movimentação rígida no estilo “tanque”, semelhante a Tomb Raider. Isso não combina em nada com a quantidade de combates que o jogo apresenta. Andar, mirar e atacar não parecem ações bem integradas, tornando os confrontos confusos e frustrantes, principalmente quando o jogo exige precisão.
Os cenários também mudaram completamente. Em vez de ruas abertas e áreas urbanas, surgem corredores fechados e fases labirínticas. O progresso passa a depender de cartões de acesso, botões e pequenos puzzles. A sensação de liberdade e improviso do primeiro jogo desapareceu, dando lugar a uma estrutura repetitiva e cansativa.
O foco maior em armas de fogo não ajuda. Há vários tipos disponíveis, mas o sistema de tiro é horroroso. A mira em primeira pessoa até quebra o galho em alguns momentos, mas não se encaixa bem no ritmo das fases. O combate corpo a corpo, que deveria ser o alicerce da série, fica em segundo plano e perde completamente a força. E mesmo tentando ser mais complexo, com inventários e puzzles, além de uma lógica de exploração, Fighting Force 2 não consegue organizar suas ideias. Falta identidade, falta direção, falta clareza. Rejogá-lo hoje deixa evidente por que foi tão mal recebido na época. É um jogo que exige paciência, mas oferece pouca recompensa.
Dentro da coletânea, Fighting Force 2 não soma, ao contrário, ele realça as qualidades do primeiro jogo pelo contraste. Jogados em sequência, os dois deixam claro como a série perdeu o rumo, o que ajuda a explicar por que não teve continuidade.
Como produto, Fighting Force Collection é um relançamento que não tenta se vender como uma reunião de grandes clássicos. Sua proposta é básica, a de fazer os jogos antigos funcionarem corretamente nos consoles atuais. O pacote traz as versões de PlayStation 1 de Fighting Force e Fighting Force 2, com recursos modernos como salvamento a qualquer momento, rebobinar ações e ajustes de imagem. Não estão incluídas outras versões, como as de Nintendo 64, PC ou Dreamcast, o que, para fins de conservação histórica, é um vacilo. Também não há vídeos, entrevistas ou material histórico relevante. A apresentação é simples e direta e não impressiona.
A questão central não é se a coletânea respeita os jogos originais, mas se ela oferece algo que valha a pena hoje. Como registro histórico, é incompleto por ignorar outras versões. Como produto para colecionadores, deixa ainda mais a desejar. E como experiência em 2026, depende muito da tolerância do jogador a gráficos datados e aos controles duros e mecânicas limitadas do segundo título. Para quem viveu os anos 90, há uma forte carga nostálgica, com tudo de bom e de ruim daquela época. Para quem não viveu, o apelo depende apenas do quanto esses jogos ainda conseguem divertir hoje. Nesse sentido, o primeiro Fighting Force segura o pacote, enquanto o segundo funciona apenas como uma curiosidade histórica que dificilmente você vai querer se aventurar.
Tecnicamente, a emulação é bem estável e os jogos rodam bem. Os melhores recursos são o salvamento livre e a possibilidade de rebobinar erros, especialmente úteis em jogos antigos e punitivos. Em Fighting Force 2, esses recursos chegam a ser essenciais. Visualmente, há filtros que simulam TVs antigas, mas nenhuma melhoria real. Os gráficos continuam simples e datados, mesmo com os filtros de resolução e estabilidade. O conteúdo extra é fraco, com uma galeria pequena e sem contextualização. Para uma coletânea, o pacote oferece pouco além do básico, e o preço acaba pesando.
No fim das contas, Fighting Force Collection é um retorno modesto a um período específico da transição para o 3D, quando a indústria ainda experimentava sem saber exatamente onde estava pisando. Isso explica tanto o charme quanto as limitações do pacote. Fica claro que o primeiro Fighting Force segue sendo o ponto alto, pois, mesmo repetitivo e datado, funciona por ser um beat ’em up direto, exagerado e focado na diversão imediata. Já Fighting Force 2 é horrível.
Como coletânea, Fighting Force Collection entrega um conteúdo de forma crua, exigindo que o jogador já conheça os jogos para aproveitá-los melhor. Para veteranos, isso pode bastar, mas para novos jogadores dificilmente. Trata-se, acima de tudo, de um produto voltado aos nostálgicos, pensado para resgatar a memória de uma das fases mais marcantes da infância de muita gente: os anos 90. Um tempo em que quase todo dia valia a pena dar uma passada na locadora do bairro, encontrar os amigos e jogar muito, inclusive Fighting Force. Bons tempos.








