ENTREVISTA INÉDITA DE AKIRA TORIYAMA REVELA DIABETES, TUMOR E UMA INFÂNCIA DIFÍCIL EM UMA FÁBRICA

A Shunkan Shinchou, de 21 de março de 2024 (lançada oficialmente em em 14 de março de 2024 no Japão), trouxe mais detalhes sobre a vida íntima de Toriyama, aos olhares de pessoas bem próximas a ele. Tanto questões sobre sua infância difícil, adolescência, a morte do pai em 2014 e seus problemas de saúde até então desconhecidos.

Nem mesmo os desejos sobre “Dragon Ball” são realizados…

Reportagem especial – “Akira Toriyama”

Uma “vida de amor pela cidade natal” envolta de mistérios

▷ Durante a infância, ele morou na sede de uma empresa de concreto pré-moldado, em uma família modesta.

▷Nas festas, ele se escondia atrás das cortinas para assinar autógrafos em painéis.

▷ O “Palácio Arale-chan”, seu “retiro”, foi atingido pelos esquemas de sonegação fiscal, revelados no “Paradise Papers”.

Foi no dia 8 [de março] que a notícia do falecimento foi publicada no site oficial da revista “Shonen Jump” da Shueisha. Imediatamente após isso, as redes sociais ficaram agitadas, com muitas postagens angustiantes, como “Coletem sete Esferas do Dragão e tragam de volta à vida”, disse um editor de jornal esportivo. Também mencionou que “as obras do Sr. Toriyama têm muitos fãs no exterior, e o Ministério das Relações Exteriores da China adotou uma resposta incomum ao expressar ‘profundo pesar’ durante uma coletiva de imprensa. Além disso, o presidente Macron da França exibiu um papel autografado pelo Sr. Toriyama e prestou homenagem também em japonês” (Mesma fonte citada).

Sua obra de estreia, “Dr. Slump”, começou a ser serializada na revista Shonen Jump, em 1980. No ano seguinte, foi adaptada em um anime para a TV, e as expressões em “Aralês” [Arale-go] usadas pela protagonista, se tornaram populares na época.

O ilustrador residente na província de Gifu, Takashi Matsuyama, de 66 anos, que atuou como assistente de Toriyama por 11 anos, revelou: “Tínhamos combinado de nos encontrarmos ainda este mês, mas…”. Disse ainda: “A última vez que encontrei o sensei foi em setembro do ano passado. Ele já sofria de diabetes e me disse: ‘Preciso passar por uma cirurgia no cérebro para remover um pequeno tumor’. Mesmo assim, ele disse que era algo na área externa do cérebro, então não seria tão complicado. Fiquei aliviado. Inicialmente, a cirurgia estava programada para o final do ano, mas foi adiada por motivos de trabalho [aqui parece ser uma conjectura de Matsuyama]. Em janeiro, trocamos mensagens de e-mail e ele disse: ‘A cirurgia foi remarcada para fevereiro, então nos encontraremos depois disso'”. Para quem era próximo, a doença repentina foi um choque devastador.

Toriyama-san, conhecido como um criador extraordinário e também por ter acumulado uma vasta fortuna, alcançou o primeiro lugar na lista dos mais ricos na “Categoria de Personalidades”, em 1981, com uma renda declarada em 539,24 milhões de ienes no primeiro ano, e no ano seguinte, com 647,45 milhões de ienes. Ele permaneceu por muito tempo nessa lista.

“No final de 1982, construiu uma nova casa de dois andares, com uma área de aproximadamente 340 metros quadrados em um terreno de aproximadamente 870 metros quadrados, em sua cidade natal de Kiyosu-cho, na província de Aichi (agora Kiyosu-shi), O local foi apelidado de ‘Palácio Arale-chan’. Em 1984, a serialização de “Dragon Ball” começou na Jump, e até agora, foram vendidas um total de 260 milhões de cópias em todo o mundo. As vendas totais de produtos relacionados, como anime e jogos, para a mesma obra, são estimadas em mais de 23 bilhões (aproximadamente 3,4 trilhões de ienes)”.

O “lendário”, que cativou o mundo, partiu sem que fosse de fato conhecido. No dia 1º de março, o mangaka Akira Toriyama faleceu aos 68 anos. A causa da morte foi uma hemorragia subdural aguda. Apesar do brilhantismo em lançar uma série de sucessos, sua vida pessoal permaneceu envolta em mistério por um longo tempo. Pode-se dizer que esse mistério até mesmo aumentou seu carisma. O que havia por trás disso tudo…….

Além de trabalhar em mangás, ele também foi responsável pelo design de personagens da série de jogos “Dragon Quest”, e em 1996, expandiu sua casa para três andares, em aproximadamente 326 metros quadrados. Por outro lado, em 2017, ele foi envolvido em uma certa “controvérsia”. Através dos documentos relacionados a paraísos fiscais conhecidos como “Paradise Papers”, foi revelado que doze japoneses investiram em uma parceria imobiliária de leasing nos Estados Unidos, nos anos 2000. Foi relatado que Toriyama-san estava incluído entre esses investidores.

“Em resposta a uma entrevista, Toriyama-san afirmou: ‘Deixo a parte fiscal nas mãos de profissionais, então não posso comentar sobre isso’. Nessa ocasião, a revista de fofocas ‘Flash’ realizou uma entrevista surpresa e, pela primeira vez em muito tempo, uma foto recente dele foi publicada”.

Em 1983, ele ficou assustado por se tornar uma figura conhecida, depois de aparecer no programa “Tetsuko no Heya” (da TV Asahi), no entanto, “durante a serialização de Dragon Ball, tornou-se comum para ele evitar exposição na mídia, algo que se intensificou, e em vez de mostrar sua aparência atual, ilustrações de autorretrato usando uma máscara de gás eram frequentemente utilizadas”.

Mesmo se tornando um autor de sucesso, ele não se mudou para Tóquio e, em 1982, casou-se com uma colega de profissão.

Toriyama-san, que tinha um filho e uma filha, sempre manteve um profundo amor por sua cidade natal. “O pai de Akira faleceu há mais de 10 anos. No funeral realizado no salão comunitário local, havia lindas ilustrações feitas pela filha de Akira [Kikka Toriyama]”, disse um morador próximo. “No verão passado, numa manhã, vi Akira-san enquanto levava o lixo pra fora. Ele estava vestindo uma camiseta elegante e shorts curtos, mas estava careca. Também achei que ele tinha engordado bastante”.

No passado, em uma entrevista para a revista “Weekly Playboy” (31 de janeiro de 1995), Toriyama-san disse o seguinte: “Eu odeio multidões, então não queria ir para Tóquio. E além disso, sou preguiçoso, então simplesmente não conseguiria viver sozinho…”.

Moradores que conhecem a família Toriyama há muito tempo disseram: “O pai de Akira-san trabalhava em uma empresa de produção de concreto próxima, e, quando ele era pequeno, morava com os pais e a irmã em uma casa de um andar dentro do terreno da empresa. Seu pai dirigia um caminhão betoneira, e sua mãe cuidava das refeições dos funcionários. Sua vida certamente não era fácil. Desde a escola primária, Akira-san sempre gostou de desenhar. Soube que ele dizia: ‘Não irei para o ensino médio’, mas acabou sendo persuadido pelos seus pais”.

Em 1971, ele ingressou no Departamento de Design da Escola Técnica Industrial da Prefeitura (agora Escola Técnica Industrial de Ichinomiya). De acordo com seus colegas de classe, “Havia cerca de 40 alunos no Departamento de Design, mas a habilidade de desenho de Toriyama-kun era excepcional. Ele era membro do Clube de Arte e do Clube de Mangá, e desenhava mascotes de papelão para os festivais esportivos, além de capas para os folhetos das excursões”. Em seu álbum de formatura, havia uma ilustração de um pistoleiro, desenhada por Toriyama-san.

“Ele era magro na adolescência, mas quando nos encontramos em 1997, em uma reunião de turma, fiquei surpreso com o quanto ele tinha mudado fisicamente. Mesmo assim, ele ficou desenhando autógrafos sem parar, sem sequer tocar na comida, só quando lhe ofereciam. Quando pedi um autógrafo para as crianças, ele rapidamente desenhou um ‘Super Saiyajin’ na minha frente.”

Junji Yamamoto, que anteriormente planejou e concebeu a exposição “O Mundo de Akira Toriyama [AKIRA TORIYAMA THE WORLD]” no Departamento de Marketing da Shueisha, disse: “De 1993 a 1997, planejamos exibir as obras originais de Toriyama-san em todo o país, começando pelo Museu Nacional de Arte Ocidental. Seria a segunda vez que uma exposição de um mangaka era realizada em um museu público, sendo a primeira a de Osamu Tezuka-san. Quando abordei Toriyama-san para falar pela primeira vez sobre a ideia da exposição, ele apenas sorriu timidamente e disse: ‘Isso…… está (me) elogiando demais, não?’. Mesmo sendo uma figura renomada, ele era uma pessoa totalmente humilde”.

Além disso, continua: “De vez em quando, havia festas na Jump onde mangakas e pessoas relacionadas se reuniam, mas Toriyama-san sempre aparecia vestindo jeans, moletom, boné e tênis. Mesmo sendo um evento exclusivo para os envolvidos, aquelas pessoas que raramente tinham a oportunidade de vê-lo formavam filas para pedir autógrafos. Nessas ocasiões, Toriyama-san se escondia nos cantos da sala, atrás das cortinas, para receber as pessoas. Ele era naturalmente tímido, e provavelmente tinha esse cuidado de não chamar atenção só para si, pensando: ‘Há outros artistas aqui também, seria ruim se eu fosse o único a me destacar’. Ele sempre preferiu ser ‘normal’ em tudo que fazia”.

Matsuyama-san, mencionado anteriormente, também disse: “Eu auxiliei o sensei como seu segundo assistente”. Tínhamos muitos hobbies em comum, como carros, motos filmes e modelagens, e compartilhávamos momentos divertidos fora do trabalho. Parece que o motivo pelo qual o sensei permaneceu em sua cidade natal, Aichi, era porque ele gostava do ambiente tranquilo do campo. Anteriormente, ele costumava ir a Tóquio para trabalhos como jurado em concursos de mangá, mas ele disse: ‘Ultimamente, não tenho ido e tenho recusado esses convites’. 

Toriyama-san, que gostava de observar os ingredientes nos supermercados, “costumava dirigir um carro leve [kei car], mas tinha um senso de direção ruim. Uma vez ele disse: ‘não consigo ir a lugar nenhum sozinho’ e, como eu conhecia bem as estradas, ele me chamava de ‘Map-kun’. Eu tinha a intenção de muito em breve convidar o sensei para experimentar um passeio de ‘Outrigger Canoe [canoa polinésia]’ para seis pessoas, no Mar Interior de Seto, para relaxar após tantos anos de trabalho duro. Mas acabou que isso aconteceu”.

Hiroki Gotou-shi, que atuou como editor-chefe da Jump por sete anos, a partir de 1986, disse: “Toriyama-san conseguia com muita habilidade misturar história e comédia em suas obras. E isso vinha de forma natural, sem parecer forçado ou desagradável. Eu via que ele possuía uma habilidade natural para desenhar facilmente tanto a história quanto a comédia, sem qualquer tipo de esforço”.

O mundo perdeu um grande mestre do estilo Niten ichi-ryuu [Dois Céus, Um Fluxo].

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