Realm of Ink – Análise

Realm of Ink – Análise

Realm of Ink é um roguelite de ação desenvolvido pela Leap Studio e publicado pela 4Divinity, disponível para PlayStation 5, Xbox Series X/S, Nintendo Switch e PC. O jogo chega marcado nos últimos anos pela influência forte de Hades, e não esconde essa referência em sua estrutura principal, com o já conhecido avanço por salas, escolha de recompensas, progressão permanente entre tentativas e uma narrativa que se desenvolve aos poucos conforme o jogador morre, retorna e tenta outra vez.

A comparação com Hades aparece de forma quase inevitável, porque Realm of Ink trabalha com o mesmo tipo de câmera isométrica em salas sequenciais e encontros com chefes, além de um hub para reorganizar melhorias antes de cada nova tentativa. Ainda assim, o jogo aposta em uma estética oriental muito forte, inspirada em pintura chinesa com tinta nanquim, além de um sistema de builds bastante amplo, centrado nas Relíquias de Tinta, nos itens passivos, nas personagens jogáveis e principalmente em Momo, uma criatura de tinta que acompanha a protagonista e muda de forma conforme as combinações equipadas.

Realm of Ink é um roguelite muito bonito e generoso em possibilidades. Ele não reinventa o gênero, não está no mesmo nível de polimento, profundidade narrativa ou impacto de Hades, mas tem um sistema de combate bem legal, com chefes interessantes, além de conseguir nos convencer de jogar várias e várias outras tentativas, como esperado do gênero.

A história acompanha Red, uma espadachim que inicia sua jornada movida por vingança contra uma raposa demoníaca. A premissa parece simples no começo, mas aos poucos revela que a protagonista está presa dentro de uma coleção de histórias, em um mundo construído por tinta. A personagem passa a perceber que sua existência, seus caminhos e até mesmo sua própria repetição fazem parte de um livro já escrito, o que dá ao ciclo de mortes e retornos uma justificativa narrativa interessante dentro da lógica roguelite.

O fato de Red estar presa em um manuscrito vivo ajuda a dar sentido ao recomeço constante e aos finais diferentes, que podem ser desbloqueados. Há seis finais para encontrar, além de histórias ligadas a personagens secundários que aparecem ao longo da jornada. O problema é que a narrativa nem sempre funciona. Ainda que o mundo de Reaçm of Ink seja interessante, além de possuir personagens e um tema que combine com a mecânica, a forma como tudo é apresentado às vezes é meio dispersa e superficial.

O jogo não contextualiza seu universo com tanta clareza, e algumas informações importantes ficam espalhadas por conversas e novas tentativas. Para entender melhor o que está acontecendo, é preciso jogar bastante, prestar atenção aos personagens e aceitar que a narrativa vai se abrindo aos poucos. Isso até faz sentido dentro do gênero, mas aqui nem sempre gera o envolvimento esperado, pois a história acaba não se tornando o principal motivo para continuar.

Outro problema em Realm of Ink  está em seu trabalho de dublagem com atuações inconsistentes e cenas em que personagens parecem falar sem voz. A localização também contém falhas que soam como uma tradução pouco revisada. De toda forma está bem longe de ser algo medíocre.

O combate é onde Realm of Ink se destaca, com uma jogabilidade bem rápida e bastante agradável desde as primeiras tentativas. Red se move com agilidade, alternando ataques leves, ataques pesados, esquivas e habilidades especiais, como esperado de um bom roguelite de ação.

Em Realm of Ink, o jogador avança por salas, derrota todos os inimigos, escolhe recompensas e segue para o próximo encontro. Ao longo da tentativa, é possível encontrar novas Relíquias de Tinta, melhorias temporárias, itens passivos, recursos para cura e opções de loja. Entre uma sequência de combates e outra, surgem áreas seguras com mercadores, comida para recuperar vida e estações para melhorar relíquias.

As tais Relíquias de Tinta são uma das principais bases de Realm of Ink. Red pode equipar duas ao mesmo tempo, ou uma única relíquia primordial mais poderosa, e cada uma delas está ligada a elementos como fogo, água, terra, madeira, metal ou outras variações associadas ao universo do jogo. Essas relíquias podem fortalecer ataques leves, ataques pesados, dano elemental, efeitos de status, defesa, tempo de recarga e também o desempenho de Momo. Além disso, elas podem alterar o tipo de ataque, gerar disparos, rajadas, invocações, efeitos em cadeia, veneno, maldições, ataques automáticos e outras vantagens. Quando uma nova relíquia aparece ao final de uma sala, o jogo permite testá-la antes da troca definitiva, o que é uma decisão muito boa, porque ajuda a comparar habilidades e evita que o jogador estrague uma build sem entender direito o que está escolhendo. É um conceito tão bom que deveria se tornar padrão no gênero.

Outro destaque é a Momo, a bolinha de tinta que acompanha Red na campanha. Ela começa como uma pequena bola preta de tinta, mas muda de forma conforme a combinação de Relíquias de Tinta equipada. Cada forma altera habilidades e o comportamento em combate. Momo pode ajudar com dano direto, pode fortalecer a protagonista, aplicar efeitos ou complementar a estratégia da run. Tudo vai depender das combinações utilizadas, ou seja, trocar uma relíquia pode significar também perder uma forma poderosa de Momo e ganhar outra completamente diferente. Mas nem sempre o jogo explica com clareza quais combinações geram quais transformações.

Além das relíquias, Realm of Ink trabalha com itens passivos, curiosidades e elixires que podem modificar bastante uma tentativa. Esses itens aumentam vida, dano, resistência, chance crítica, dano crítico, velocidade de recarga, efeitos elementais, veneno, escudos e outras vantagens. Como os bônus acumulam, uma run favorável pode transformar Red em uma personagem quase imparável.

Realm of Ink possui muitas relíquias, itens, passivos, raridades, evoluções, formas de Momo, estilos de personagem e melhorias permanentes, e cada uma dessas opções vem acompanhada de descrições detalhadas. Para jogar bem, é preciso ler bastante e entender como as peças se conectam. O esforço compensa, porque o sistema de builds é rico, mas as primeiras horas podem parecer complicadinhas demais pra quem só queria ligar a TV e jogar.

Entre uma tentativa e outra, o jogador retorna ao Fox Inn, que funciona como hub central. Lá é possível conversar com personagens, descobrir mais sobre o mundo, melhorar habilidades permanentes, fortalecer Momo, testar builds e desbloquear novas personagens ou estilos de combate. O hub também serve como espaço de progressão narrativa e mecânica, dando ao jogador uma sensação de avanço mesmo depois de uma derrota. Assim como a maioria dos jogos do gênero.

Um ponto importante é que o jogo permite desbloquear outras guerreiras ou skins de combate que funcionam, na prática, como variações jogáveis com armas e estilos próprios. Há opções com espadas, bastões, foices, leques, magias, chakrams e outras formas de ataque. Os chefes também são destaque, onde alguns possuem fases adicionais, retornam com barra de vida cheia ou ganham ataques mais fortes, especialmente em dificuldades maiores.

Realm of Ink pode parecer fácil demais, principalmente depois que o jogador entende quais combinações são mais fortes. Algumas builds centradas em dano de área ou aumento quebram o equilíbrio, eliminando salas e chefes em segundos. De qualquer forma, o jogo libera dificuldades maiores após vitórias, oferecendo recompensas melhores e mais recursos para melhorias permanentes. Mesmo assim, o problema de balanceamento continua, porque certas builds permanecem fortes demais até em níveis superiores.

A tomada de decisão também é afetada por isso. Como algumas recompensas são claramente melhores e como o desafio nem sempre aumenta proporcionalmente ao prêmio oferecido, muitas escolhas de sala acabam ficando óbvias. Em um bom roguelite, decidir entre risco e recompensa deveria ter peso constante, mas em Realm of Ink, quando a build já está forte, quase sempre vale buscar a melhor recompensa disponível, porque o perigo deixa de assustar. Em outras palavras, Realm of Ink consegue ser divertido e viciante, mas nem sempre consegue controlar o próprio excesso de poder. Claro que isso não impede o jogador de criar suas próprias regras, como concluir uma run com uma build fraca, por exemplo.

Mesmo com esse problema, a jogabilidade continua sendo viciante. A sensação de movimento é boa, os ataques respondem bem, as salas são rápidas e a variedade de poderes incentiva o jogador a tentar novamente. Runs bem-sucedidas podem ser concluídas em cerca de 30 minutos ou menos.

Visualmente, Realm of Ink é um dos roguelites mais chamativos dentro desse recorte recente do gênero. O estilo baseado em tinta chinesa dá identidade imediata ao jogo, onde cenários, inimigos e personagens parecem construídos a partir de pinceladas, com cores vibrantes, silhuetas elegantes e uma direção de arte que se destaca mesmo quando a inspiração em Hades é evidente. Os ambientes são detalhados e agradáveis, com florestas, ruínas, mausoléus, áreas espirituais e outros espaços que reforçam a atmosfera. Os inimigos e chefes também têm bom design, misturando demônios, espíritos, criaturas lendárias e guardiões. Mesmo quando algumas salas dentro de uma mesma área começam a parecer repetitivas, a apresentação geral continua bonita e coerente.

Realm of Ink é um roguelite de ação muito competente, que se apoia em ideias conhecidas, mas consegue criar personalidade própria por meio da estética, das Relíquias de Tinta, de Momo e da variedade de builds. O jogo é claramente inspirado em Hades e não tenta esconder isso, mas é muito mais do que uma cópia bonita. É um jogo divertido, acessível, estiloso e cheio de possibilidades, que pode parecer fácil demais para veteranos, mas que oferece uma boa porta de entrada para iniciantes, desde que estejam dispostos a ler e entender os recursos utilizados. Vale a pena.

Nota: 9,0

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