Tales of Berseria Remastered – Análise
Tales of Berseria Remastered é um relançamento do RPG de ação originalmente desenvolvido pela Bandai Namco Studios e publicado pela Bandai Namco Entertainment, agora disponibilizado em versões atualizadas para plataformas modernas. O jogo pertence à tradicional franquia Tales of, e nesta nova edição retorna com melhorias para os atuais consoles, mantendo a base lançada originalmente para PlayStation 4, PlayStation 3 e PC.
Tales of Berseria Remastered é um relançamento curioso porque coloca de volta no centro do palco um JRPG que ainda é lembrado como um dos mais ousados e emocionalmente carregados da fase “moderna” da série, só que faz isso com um pacote de melhorias tão comedido que certamente fará qualquer jogador perguntar onde, exatamente, está o “remaster”. No fim das contas, vira um lançamento para quem nunca jogou, e difícil de justificar a recompra para quem já tem a versão anterior rodando sem esforço no hardware atual.
Ainda assim, existe uma razão bem objetiva para esse retorno ser relevante, porque Berseria continua sendo um ponto fora da curva dentro de Tales. A história tradicional da série envolvendo heróis virtuosos dá destaque para uma protagonista movida por vingança, cheia de ódio, acompanhada de um elenco forte e um sistema de combate que continua sendo um dos mais flexíveis da franquia, mesmo com seus vícios de repetição e com a dependência de dungeons pouco inspiradas.
A narrativa de Tales of Berseria Remastered permanece essencialmente a mesma do jogo original lançado em 2016, e acompanha Velvet Crowe, uma jovem cuja vida tranquila em uma pequena vila é destruída quando seu irmão é sacrificado em um ritual conduzido por Artorius, o próprio cunhado dela. A partir desse evento, Velvet se transforma em uma Therion, um daemon, e devora outras criaturas demoníacas para absorver poder. Depois de anos presa em uma instalação controlada pela ordem religiosa conhecida como Abbey, Velvet escapa e inicia uma jornada movida por um objetivo bem direto, que é encontrar Artorius e se vingar, e esse ponto de partida define o clima da narrativa de um jeito que se distancia do padrão clássico de muitos JRPGs centrados em salvar o mundo ou restaurar a ordem. Em vez disso, o jogo constrói uma história sobre vingança, trauma e as consequências de agir movido por ódio, sem precisar suavizar demais esse impulso só para caber num moralismo confortável.
Ao longo da jornada, Velvet reúne um grupo de aliados com motivações próprias, e aí entram Rokurou, um espadachim daemon em busca de redenção, Magilou, uma bruxa imprevisível com um senso de humor caótico, Eizen, um malak que atua como imediato de uma tripulação pirata, Eleanor, uma exorcista que começa a questionar os dogmas da Abbey, e um jovem malak que Velvet decide chamar de Laphicet.
Velvet Crowe continua sendo destaque, com um comportamento frio, agressivo e disposta a usar qualquer meio necessário para alcançar o objetivo. A diferença dela para protagonistas tradicionais da série aparece logo no início, já que no lugar de uma heroína altruísta, temos alguém movida pela vingança contra Artorius. Mas ao longo da narrativa essa rigidez passa a ser confrontada tanto pelas experiências da jornada quanto pelas relações que ela constrói com o restante do grupo, o que gradualmente revela outras camadas da personagem.
As pequenas conversas opcionais entre membros do grupo, continuam sendo um dos recursos narrativos mais importantes da série, e aqui elas fazem diferença de verdade porque ajudam a aprofundar relações, revelar motivações, equilibrar momentos dramáticos com humor e ainda dar aquela respirada que a campanha precisa em vários pontos. E o jogo também se destaca por explorar temas menos comuns dentro do gênero, como o conflito entre ordem e liberdade, o papel das emoções na tomada de decisões e o peso das escolhas individuais num mundo marcado por instituições rígidas, além de insistir em questionar, ao longo da campanha, quem realmente está certo na história.
Mesmo quase uma década após o lançamento original, a história continua sendo a cereja do bolo em Tales of Berseria, visto que o enredo consegue sustentar o interesse durante grande parte da campanha, principalmente graças à evolução de Velvet como personagem e às dinâmicas. A verdade é que grande parte do impacto de Tales of Berseria vem do elenco, e a jornada de Velvet funciona porque os personagens que a acompanham são muito bem desenvolvidos. No conjunto, o elenco de Berseria costuma ser apontado como um dos mais fortes da franquia, e com razão, já que a variedade de personalidades e os diferentes pontos de vista dentro do grupo fazem a narrativa funcionar bem demais.
Outro elemento importante é o Break Soul, uma habilidade exclusiva de cada personagem que consome uma alma para ativar efeitos especiais. No caso de Velvet, por exemplo, essa habilidade permite drenar energia do inimigo e entrar em um estado mais agressivo. O sistema também permite alternar o personagem controlado durante o combate.
Mesmo quase uma década após o lançamento original, o sistema continua sendo um dos pontos mais fortes do jogo, oferecendo liberdade suficiente para experimentação e mantendo as batalhas rápidas e visualmente intensas, mesmo sem aquela complexidade técnica de alguns RPGs de ação. Mas se o combate e os personagens estão entre os pontos mais fortes de Tales of Berseria, o mesmo não pode ser dito da exploração, que continua sendo um ponto fraco nessa remasterização.
Grande parte da jornada acontece em mapas relativamente lineares e embora alguns ambientes tenham uma identidade visual interessante em um primeiro momento, muitos deles acabam parecendo genéricos após um tempo. As áreas costumam seguir estruturas bastante simples, com muita pouca interação com o cenário, chegando a decepcionar. As dungeons continuam sendo um dos aspectos mais criticados do design do jogo. Na maioria dos casos, elas se resumem a corredores longos e com nada novo. Em alguns momentos o jogador precisa ativar dispositivos, encontrar chaves ou abrir caminhos alternativos para avançar, mas esses elementos quase nunca evoluem para puzzles mais elaborados ou desafios.
Outro problema recorrente é que, em vários trechos da campanha, o jogo pede que o jogador retorne a áreas já visitadas para cumprir novos objetivos ou acessar caminhos que antes estavam bloqueados e, como os cenários oferecem pouca variedade estrutural, isso acaba se tornando desinteressante e cansativo.
A remasterização tenta amenizar parte dessa frustração com alguns ajustes. Uma das alterações mais perceptíveis é a presença de marcadores de objetivo mais claros, que indicam a direção da missão principal diretamente no mapa. No lançamento original, muitos jogadores precisavam consultar o mapa com frequência ou explorar várias áreas até descobrir qual era o próximo destino da história, e, com esses indicadores, a navegação se torna muito mais prática.
Outro ajuste está na velocidade de movimento dos personagens, que foi aumentada em cerca de 20%. Pode parecer um detalhe pequeno à primeira vista, mas na prática reduz bastante o tempo gasto atravessando mapas e cidades. A remasterização também melhora o fluxo geral da partida em alguns aspectos. O Grade Shop agora fica disponível desde o início do jogo. Na versão original, esse sistema só era liberado depois de terminar a campanha.
Alguns itens de viagem rápida, que antes eram obtidos mais tarde na história, agora aparecem muito mais cedo, facilitando deslocamentos entre cidades e dungeons. Foi incluída também uma opção de retry após derrotas em batalhas normais, algo que antes estava disponível apenas em confrontos mais importantes. A possibilidade de desativar encontros inimigos no mapa também foi adicionada. Além dessas mudanças, a remasterização inclui grande parte dos DLCs lançados originalmente, que agora fazem parte do pacote padrão da nova edição.
Visualmente, Tales of Berseria Remastered mantém o estilo anime característico da série, com cel-shading e modelos estilizados, e a direção de arte continua funcionando bem, principalmente nos personagens, já que os designs seguem expressivos e fáceis de reconhecer, então mesmo quase dez anos depois o visual ainda tem identidade própria.
A remasterização traz melhorias de resolução e desempenho, com suporte a 4K e 60 fps em consoles mais recentes, e no geral o jogo roda de forma estável, com carregamentos rápidos e transições mais suaves entre áreas, além de texturas um pouco mais nítidas e algumas superfícies com cores mais vibrantes. Só que os limites da base original continuam visíveis, porque muitos cenários ainda têm baixo nível de detalhe, especialmente em ambientes naturais e áreas abertas, a distância de renderização pode ser curta em alguns momentos, e certos elementos do cenário aparecem meio de repente conforme você se movimenta. As animações faciais também entregam a idade do projeto.
No som, o jogo mantém a trilha de Motoi Sakuraba e Takeshi Asakawa, e a trilha cumpre bem o papel. A dublagem, disponível em japonês e inglês, continua sendo um dos pontos fortes, especialmente no caso da Velvet, cuja interpretação transmite bem os sentimentos que definem a personagem.
Por fim, Tales of Berseria Remastered preserva praticamente tudo o que fez do jogo original um dos capítulos mais marcantes da série, e a história centrada em Velvet Crowe continua sendo um dos pontos mais fortes da franquia. Mas os problemas conhecidos continuam ali, com apenas algumas mudanças discretas. Para quem nunca jogou Tales of Berseria, essa é facilmente a forma mais conveniente de conhecer um dos JRPGs mais interessantes da série nos últimos anos, que possui uma narrativa forte e personagens memoráveis, só que a própria remasterização continua mais discreta do que o nome faria você imaginar.
Nota – 9,0









