QUEM DECIDE AS CORES PARA AS PRODUÇÕES ANIMADAS DE DRAGON BALL?

O artigo a seguir é uma tradução do artigo original em inglês do usuário @Venixys no Twitter/X:
https://x.com/Venixys/status/2012865481321955510
É comum encontrar comentários online atribuindo as escolhas de cores de séries animadas a uma única pessoa. Por exemplo, as pessoas erroneamente falam das “cores de Tadayoshi Yamamuro” para Dragon Ball Super ou, no caso do filme DBS: Broly, das “cores de Naohiro Shintani”. É importante ressaltar desde já que isso é um mal-entendido: os designers de personagens não decidem as cores.
O trabalho deles, como no caso de Yamamuro ou Shintani, é fornecer fichas de personagens estritamente sem cores. A responsabilidade de criar e estabelecer a paleta de cores cabe, por sua vez, a outra figura: o designer de cores.
Tecnicamente, são eles que criam as cores, mas a paleta final é resultado de reuniões estratégicas. Figuras-chave como o diretor, o produtor e o diretor de arte participam dessas reuniões; os designers de personagens podem participar para dar feedback, mas sua influência varia de acordo com a produção e eles não têm automaticamente a palavra final.
Para esclarecer o processo, vale a pena citar Kunio Tsujita, designer de cores de longa data da franquia, em um comentário para a coluna AnimeStyle:
Tsujita: O trabalho do colorista consiste em criar e definir as cores base dos personagens e determinar a paleta de cores da obra. Trata-se de dar cor aos desenhos; a imagem é construída através da troca de opiniões e reuniões com o diretor, às vezes com o designer de personagens, o designer de cenários e o produtor, antes de ser transposta para as cores finais.

No entanto, há outra distinção a ter em mente: existe uma grande diferença entre produções autorais e grandes franquias comerciais.
Em produções mais autorais, o designer de cores e o diretor podem ter quase total liberdade artística; em megaproduções sujeitas a restrições de marca, no entanto, as escolhas de cores muitas vezes precisam seguir diretrizes impostas pelo marketing e pelos licenciados.
Tsujita também compartilha sua experiência com Saint Seiya para explicar esse mecanismo:
Tsujita: Quanto a Saint Seiya, para alguns personagens, as cores foram escolhidas pela Bandai, a principal patrocinadora da série animada.
Essa lógica ajuda a entender as cores controversas de Dragon Ball Super. Como evidenciado pelos protestos nas redes sociais do ilustrador promocional Fenyo_n, os detentores dos direitos (Shūeisha e agora Capsule Corporation Tokyo) exercem um controle muito rígido sobre a identidade da marca.
Ao que parece, o uso intenso de brilhos lustrosos, sombreamento forte e cores saturadas respondeu mais à necessidade de uniformidade em cards colecionáveis, videogames e produtos licenciados do que a escolhas puramente estéticas. Em outras palavras, a paleta serve para fortalecer a marca em vez da estética independente do anime.
Obs: Os erros de projeto de Yamamuro ainda persistem, claro, enquanto no caso de Fenyo_n, adicionam estes problemas para manter consistência com a marca, desrespeitando seu desejo enquanto artista.
DESABAFO DE FENYON NO INSTAGRAM
Em maio de 2024, o artista promocional Fenyo_n expressou sua frustração ao ver suas ilustrações modificadas sem seu consentimento, especificamente pelas equipes de Dragon Ball Z: Dokkan Battle e Dragon Ball Legends.
Isso também se aplica a trabalhos com a Shūeisha e a Toei Animation: a maioria das empresas considera as criações dos artistas como propriedade exclusiva deles. A partir do momento em que o material é entregue, Fenyo_n perde todos os direitos e créditos relacionados à sua criação.
Fenyo_n: Os brilhos no cabelo… são frequentemente adicionados sem minha permissão. Mesmo que você se dedique de corpo e alma a um desenho, ele pode acabar sendo modificado e divulgado ao mundo sem que peçam permissão… Essa é a dura realidade do meu trabalho. Quanto mais profundo o amor pela sua arte, mais fácil é para o artista se desanimar com a realidade da indústria. Se você almeja se profissionalizar, é importante ter a capacidade de separar paixão de trabalho. No fim das contas, é um negócio. Enquanto houver capitalismo envolvido, quem fornece o dinheiro é obviamente o mais poderoso. A única solução seria se tornar acionista e assumir o controle total da empresa, como Elon Musk fez (ao comprar o Twitter).
Ele continua:
Fenyo_n: Em muitos casos, depois que um desenho é entregue, o artista é obrigado a redesenhá-lo, essencialmente comunicando que foi rejeitado. Se você for um artista comum, provavelmente ficará desanimado, porque o trabalho no qual você investiu tanto esforço e dedicação será reduzido a nada. Eu poderia me recusar, mas isso incomoda a todos os envolvidos e os clientes, então sempre tenho que lidar com isso com lágrimas nos olhos. Tem sido assim desde o início, então me conformei com a ideia de que a situação nunca vai mudar.

O DESAFIO DA MODERNIZAÇÃO
Durante grande parte de sua história, Dragon Ball foi produzido usando a técnica tradicional de animação em celuloide, pintada à mão. Quando a franquia retornou à produção nos anos 2000, a equipe teve que lidar com o fato de que não existia uma biblioteca de cores digitais para Goku e seus amigos.
Foi somente em 2008, para a produção de Yo! O Retorno de Son Goku e Seus Amigos!!, que o veterano Kunio Tsujita foi chamado de volta para fazer a transição da série para o novo milênio. O desafio era recriar a identidade cromática da série do zero, com base em materiais analógicos antigos.
Tsujita: Estamos trabalhando em um projeto especial para o evento da Shūeisha. Desta vez, temos uma espécie de episódio escrito pelo autor original, Toriyama-sensei! […] Meu trabalho começa com a extração de informações de cores de materiais antigos no banco de dados da Toei e a conversão delas em especificações cromáticas digitais. Dragon Ball continuou sendo pintado à mão em acetatos e filmado até o fim de sua exibição. Consequentemente, não temos materiais preparados para a colorização digital, então precisamos começar do zero… Devo dizer que é um processo bastante desafiador (risos).
A primeira tentativa de digitalização, no entanto, não correu como planejado. A paleta de cores inicialmente criada por Tsujita acabou sendo muito suave e moderna para os padrões robustos da série clássica.
Tsujita: Estou reformulando as especificações de cores para todos os personagens que aparecem, digamos que sejam mais de 60 no total. Comecei pelos principais para estabelecer um equilíbrio. No entanto, quando filmamos algumas cenas usando as cores que eu havia criado inicialmente, percebemos que o resultado final se tornou um Dragon Ball inesperadamente delicado… A combinação de cores parecia um pouco moderna demais. Então, com minhas sinceras desculpas, refiz tudo para trazer as cores de volta a um estilo Dragon Ball mais impactante.
Apesar desse trabalho minucioso de correção, aquela paleta específica de 2008 foi efetivamente abandonada após a edição especial, permanecendo como uma peça única.

A ERA TEPPEI HOTA
Quando a Toei decidiu lançar séries como Dragon Ball Kai, os filmes A Batalha dos Deuses e O Renascimento de Freeza, e então Dragon Ball Super, a tarefa de definir a nova identidade cromática foi confiada a Teppei Hotta.
Hotta é a única pessoa creditada pela criação e aplicação das cores aos designs de personagens modernos de Tadayoshi Yamamuro. Sua paleta é caracterizada por:
- Saturação excessiva
- Contrastes fortes
- Um efeito brilhante/plástico na pele dos personagens.
Retomando a primeira parte deste artigo, é muito provável que Hotta tenha tido que seguir diretrizes de marca precisas.
Se analisarmos as ilustrações promocionais, os cards de Dragon Ball Heroes e os videogames lançados entre 2008 e 2013, veremos que esse estilo super saturado e brilhante já era o padrão comercial imposto pelos licenciados. Hotta, muito provavelmente, foi encarregado de padronizar o anime para essa estética plastificada, com o objetivo de criar uma aparência uniforme para a venda de produtos.

A ERA RUMIKO NAGAI
A partir do filme Dragon Ball Super: Broly, a pessoa responsável pelo design de cores dos projetos de animação foi Rumiko Nagai. Ao contrário de seu antecessor, Nagai demonstrou uma abordagem experimental com paletas inovadoras que finalmente libertaram a franquia dos problemas da antiga coloração artificial.
- DBS: Broly: Graças à liberdade criativa concedida pelo diretor Tatsuya Nagamine a toda a equipe, Nagai pôde brilhar. O crédito pelo que é erroneamente lembrado como “estilo de coloração Shintani” pertence, na verdade, inteiramente a ela: uma paleta vibrante perfeitamente integrada aos designs dos personagens do filme.
- DBS: Super Hero: Nagai propôs uma paleta igualmente válida, porém diferente, em comparação com DBS: Broly, usando tons ligeiramente mais escuros, mas mantendo ainda uma frescura claramente superior ao trabalho de Hotta.
- Dragon Ball DAIMA: Inicialmente, Nagai propôs uma paleta de cores diferente para o uniforme de Goku, buscando o tom Yamabuki-iro (a cor da rosa japonesa Kerria, um tom entre amarelo e laranja). O próprio Toriyama, no guia de TV Dragon Ball Z: Son Goku Densetsu, havia declarado que adorava esse tom. No entanto, para DAIMA, Toriyama preferiu uma direção diferente, solicitando um tom de laranja mais claro (não tão escuro quanto o do Super, mas não tão amarelo quanto o Yamabuki-iro). Nagai, portanto, teve que seguir essa instrução, comunicada pelo produtor executivo Akio Iyoku, e modificar a paleta final.

