Entrevista da revista Banzai com Akira Toriyama em sua viagem aos Estados Unidos em 2002

Revista Banzai, Edição #22 (agosto de 2003)
ENTREVISTA COM AKIRA TORIYAMA EM NOVA YORK!

BANZAI! Entrevista Toriyama-sensei
(Nova York • 05 de dezembro de 2002)

A BANZAI! corre o mundo… Desta vez, a história é sobre uma viagem a Nova York.
Fomos nos encontrar diretamente com o maior mangaká da história, Akira Toriyama-sensei.
(Que honra imensa!)

Poderia nos contar um pouco sobre seus gostos e hobbies? Diga-nos do que você mais gosta e do que mais odeia!

O que eu mais gosto é de plastimodelismo, especialmente veículos militares alemães. Antigamente eu detestava ratos, mas há dois anos meu filho mais novo me implorou por um hamster e, desde então, venho me acostumando aos pouquinhos (risos).

Conte-nos brevemente sobre o seu trabalho. Como você faz quando está idealizando um mangá e na hora de desenhá-lo?

Eu basicamente começo a desenhar pensando apenas em uma história simples, não decido os detalhes com antecedência como outros mangakás fazem. Por isso, eu também fico empolgado enquanto desenho, sem saber direito como a história vai se desenrolar, igualzinho aos leitores (risos).

Você algum dia imaginou que suas obras fariam tanto sucesso? Que tipo de futuro você vislumbrava quando começou a desenhar?

Eu nunca imaginei que ficaria tão famoso. Naquela época, eu achava que se conseguisse me sustentar por um ano como ilustrador, já seria um enorme sucesso.

Gostaríamos de perguntar sobre sua obra mais representativa, Dragon Ball. Ouvimos dizer que no Japão foi lançada uma nova edição (Kanzenban), para a qual você desenhou novas ilustrações de capa. Já fazia algum tempo que você não olhava para a obra, sua visão sobre ela mudou? Conte-nos um pouco sobre isso.

O estilo de arte de Dragon Ball mudou bastante dependendo do momento. Como já se passaram 7 anos desde que Dragon Ball terminou, havia até personagens que eu já tinha esquecido (risos). Desta vez, para desenhar as novas capas, eu li a obra inteira pela primeira vez, e foi muito divertido desenhar.

Na Feira do Livro de Frankfurt, Torishima-san deu uma palestra sobre a época em que trabalhou com o senhor na Weekly Shonen Jump. Quão difícil é desenhar para uma serialização semanal? Por favor, nos conte como era a rotina de um dia de trabalho na época da serialização de Dragon Ball.

No começo, quando eu ainda não estava muito acostumado a desenhar, era bem pesado. Eu desenhava quase todo santo dia. Com o tempo, passei a conseguir desenhar em 3 dias e, no final, conseguia desenhar em apenas 1 dia. Cenas de batalha eu desenhava ainda mais rápido. Mas, como era só uma questão de seguir um padrão, não era muito divertido de desenhar. Só que, na época de Dragon Ball, como eu queria terminar logo o trabalho, acabei colocando muitas cenas de batalha (risos).

Sua obra mais recente, SAND LAND, foi serializada da edição de estreia até a edição número 7 da BANZAI!. De onde veio a ideia para essa história? Além disso, por que escolheu “Beelzebub”, que significa demônio em alemão, como o nome do protagonista? O senhor fala alemão?

Não, de forma alguma! (risos) Como eu gosto do exército alemão, conheço bem as coisas relacionadas a ele, mas o alemão que eu sei se resume basicamente a isso. No caso de SAND LAND, na verdade eu já gostava de histórias no deserto desde antes de Dragon Ball. É que é muito fácil de desenhar (risos). Além disso, eu também tinha interesse pela questão da escassez de água, então combinei bem esses dois temas. Já sobre o nome “Beelzebub”, foi minha esposa quem me ensinou, já que ela lê bastante. Ela o escolheu de dentro de um livro que estava lendo.

Na BANZAI!, também tivemos as três histórias de Nekomajin! Após o lançamento, recebemos várias opiniões dos leitores. Embora a maioria tenha sido positiva, também ouvimos reclamações de que o herói Son Goku foi satirizado. Como Nekomajin surgiu e haverá uma continuação?

Nekomajin não foi concebido originalmente como uma paródia de Dragon Ball. Eu recebi um pedido para fazer uma história em formato one-shot (capítulo único) e foi a obra que desenhei para isso. Provavelmente não haverá uma continuação.

Ao analisar as obras de outros mangakás, o que você acha mais importante: a história ou a arte?

Ah, as duas são importantes, mas eu diria que é 80% história e 20% arte. Se você treinar, sua arte melhora, mas dominar a criação de histórias é muito mais difícil.

O que seria melhor: criar a história inteira com antecedência até o final ou ir pensando no desfecho enquanto desenha?

Claro que o ideal é decidir a história direitinho desde o começo. Mas, se você definir toda a história com antecedência, não consegue incluir as ideias que surgem depois, o que diminui a diversão na hora de desenhar.

Editor Torishima: O mais importante são os personagens. Tudo bem ter uma história básica, mas como os personagens mudam no meio do caminho e você não sabe o que vai acontecer, é preciso ter flexibilidade para lidar com isso.

Na Alemanha, Hetappi Manga Kenkyūjo (Mangaká – Lições de Akira Toriyama) também é muito popular. Para quase todos os leitores de mangá alemães, você é uma referência ideal, pois foi a porta de entrada para que conhecessem os quadrinhos japoneses. Você poderia dar um conselho às crianças alemãs sobre o segredo para ter sucesso como mangaká?

É melhor não levar Hetappi Manga Kenkyujo tão a sério (risos). Até porque ele não serve como estudo para a profissão de mangaká. O mais importante é ter a sua própria originalidade e praticar desenhando muito. Tudo bem usar cursos de mangá e coisas do tipo como base, mas o principal é a originalidade. No começo, eu mesmo não sabia o que fazer para me tornar um mangaká, mas a época em que eu estava crescendo dessa forma foi a mais divertida.

Você tem algum personagem favorito em especial?

O Piccolo, pela sua personalidade bem direta e também por ser fácil de desenhar… (risos). Em termos de personalidade, o Mr. Satan foi o mais divertido de desenhar. O mais difícil foi o Vegeta. Ele é muito orgulhoso e está sempre sério. Mas, para mim, foi um bom desafio.

Em breve será produzido um filme em live-action de Dragon Ball. Sabemos que você gosta do Jackie Chan; você gostaria que ele interpretasse o Goku? Stephen King e Alfred Hitchcock sempre faziam pontas em seus próprios filmes. Assim como você aparecia em seus mangás, você também vai aparecer no filme?

Não, de jeito nenhum! (risos) Não tenho vontade de aparecer em um filme. O Jackie Chan tem a mesma idade que eu, então acho que ele já está um pouco velho demais para o papel de Goku, mas ele também aparenta ser bem jovem… quem sabe, né?

Você costuma usar a internet? Por favor, nos conte sobre o site “Jumpland” (www.jumpland.com), que é administrado pela Shueisha.

Eu não uso muito a internet, só para pedir modelos militares (risos) ou conseguir materiais de referência sobre carros. Como sou um analfabeto digital, os computadores me odeiam (risos). O desenvolvimento do “Jumpland” deu muito trabalho, mas tenho certeza de que as crianças vão adorar.

Torishima: Os adultos também, não só as crianças. (Ambos riem)

Por que você costuma usar uma máscara de gás em seus autorretratos?

Ah, no começo eu pensei em várias coisas… mas a partir de certo momento, conforme fui ficando famoso, comecei a sentir que não queria mostrar o meu rosto. Quando eu estava pensando em usar algo o mais ridículo possível para esconder o rosto, encontrei uma máscara de gás em um livro militar e pensei na hora: “é isso”.

O que você acha de mangás produzidos fora do Japão, como Crewman3?

O país de origem do autor não tem a menor importância. Acho que os autores devem incorporar em suas histórias coisas que gerem empatia ou que sejam populares no país onde vivem. Se o mangá se espalhar, as crianças de fora provavelmente vão gostar mais dos mangás de seus próprios países do que dos mangás japoneses, e acho que é assim que deve ser. Se Dragon Ball tivesse sido feito por um americano, as crianças americanas com certeza gostariam ainda mais dele do que gostam hoje. O talento do Robert Labs também se destaca em Crewman3, e acho que a série tem futuro. Continue desenhando assim. (Dizendo isso com entusiasmo, apesar de rir)

Torishima: Para o mangá se desenvolver no exterior, a presença de editores excelentes também é extremamente importante.

Nota: Crewman3 é um quadrinho alemão em estilo mangá publicado na revista BANZAI!

Qual seria o segredo para que apenas esse estilo de mangá esteja fazendo sucesso atualmente?

Para falar a verdade, eu não tenho lido mangás… (risos). Então essa pergunta talvez não seja muito apropriada para mim.

Deve ser uma sensação curiosa ter o criador de Dragon Ball na família, mas os seus filhos também gostam de Dragon Ball?

Meus filhos quase não leem meus mangás. Parece que eles gostam mais de ONE PIECE e Harry Potter (risos).

O que você lê quando tem tempo livre?

Eu costumo ler bastante revistas relacionadas a plastimodelismo (risos). Antigamente eu também lia muitos romances, mas acabava demorando demais para conseguir imaginar o conteúdo. É que o meu jeito de ler é ir imaginando com precisão tudo o que está escrito ali enquanto leio o livro.

Você gosta de cinema? Qual foi o último filme que assistiu?

Hmm… o último filme que assisti? Foi um filme de Hong Kong chamado Shao Lin (Kung-Fu Futebol Clube). Eu assisto a cerca de 10 filmes por semana (no cinema, VHS ou DVD), mas geralmente faço isso enquanto desenho ou faço outras coisas. Além disso, o design dos mechas de Star Wars me influenciou bastante.

Que tipo de música você costuma ouvir?

Ouço muito rock, como Queen, mas de vez em quando também escuto techno. Quanto mais rápida for a batida da música, mais rápido eu desenho (risos). Além disso, eu costumo fazer caretas iguais às expressões dos personagens que estou desenhando. Depois de desenhar cenas de batalha em Dragon Ball, meu rosto sempre ficava todo travado (risos).

Toriyama-sensei, muito obrigado por ceder o seu valioso tempo. Continuamos contando com o seu apoio daqui para frente.

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