
首藤剛志 Takeshi Shudo (8 de agosto de 1949 – 29 de outubro de 2010) foi o roteirista principal durante os primeiros 5 anos do anime Pokémon, escrevendo também os dois primeiros filmes da obra. Em seu blog pessoal, ele relatou diversos detalhes de sua vida e histórias de bastidores de sua época como roteirista, destacando elementos bizarros como uso de álcool e drogas para ajudar na criatividade ao produzir os roteiros, assim como também desabafou sobre suas frustrações com as escolhas dos produtores da franquia, que interferiam em sua liberdade criativa na história.
Abaixo, segue uma tradução/adaptação de um artigo em inglês do site Lava Cut, assim como de um vídeo do canal DidYouKnowGaming, que fizeram um excelente trabalho em resumir os pontos mais interessantes dos relatos de Shudo ao longo dos anos.

A CRIAÇÃO DO SEGUNDO FILME
O segundo filme de Pokémon: “O Nascimento Explosivo de Lugia”, assim como o primeiro filme: “Mewtwo Contra-Ataca”, foram dois filmes de sorte para o roteirista Takeshi Shudo.
Isso porque, pouco antes do lançamento de “Mewtwo Contra-Ataca”, ocorreu um incidente infeliz: uma sequência com luzes piscantes no episódio 38 de Pokémon: O Guerreiro Cibernético Porygon” causou convulsões em centenas de espectadores, especialmente crianças. Então, acredito que a equipe de produção estava tão ocupada lidando com a situação das convulsões que não teve tempo de se preocupar com o roteiro do primeiro filme.
Mewtwo Contra-Ataca acabou superando todas as nossas expectativas e se tornou um enorme sucesso. Isso levou o produtor principal do filme a dizer: “Tenho algumas preocupações com certos aspectos do primeiro filme, mas como foi um sucesso tão grande, não vou interferir no segundo. Só quero que vocês coloquem ‘Nascimento Explosivo’ no título.”
O SURGIMENTO DO NOME
Durante uma grande reunião (da qual participaram até mesmo as equipes de desenvolvimento e distribuição do jogo), o nome “Lugia” foi escolhido por maioria de votos. Como Lugia foi um Pokémon que eu criei exclusivamente para o novo filme, fiquei surpreso que ele tenha acabado sendo usado posteriormente nos jogos e na série de TV. Só posso imaginar o que se passou nos departamentos de desenvolvimento do jogo e da série de TV.
Olhando para trás, embora o segundo filme fosse voltado para crianças, ele abordava sutilmente temas dificilmente apropriados para elas, como “a existência do eu” e “coexistência”. Talvez uma pessoa normal pensasse que seria melhor não criar uma história com temas tão pesados, porque as crianças não gostariam. Mas é quase como se eu estivesse possuído quando decidi abordar esses temas — simplesmente cedi à tentação. Devo ressaltar que nunca fui do tipo que escreve as chamadas “histórias infantis”. De qualquer forma, escrever “O Nascimento Explosivo de Lugia” foi bastante exaustivo fisicamente para mim.

Takeshi Shudo não fez o design de Lugia; ele confirmou isso em seu blog. Ele ficou a cargo de criar o conceito de um Pokémon Lendário para o segundo filme. As folhas de design de Lugia são de autoria de Ken Sugimori.
SEM ASH
Deixei a equipe ler o primeiro quarto do roteiro, pois queria que eles tivessem uma ideia geral da estrutura. No roteiro inicial, não havia Ash nem a Equipe Rocket. A equipe me alertou sobre isso, embora eu obviamente tivesse escrito assim de propósito, mas acabei revisando o roteiro para incluir todos os personagens principais desde a primeira cena. Basicamente, deixei claro que, mesmo sendo eu quem escrevia o roteiro, estava sempre disposto a ouvir a opinião e as sugestões de todos. Acho que isso os tranquilizou, porque depois disso, consegui terminar de escrever os três quartos restantes do roteiro sem que ninguém pedisse para ver o que eu estava escrevendo.
Para mim, a parte mais difícil foi, na verdade, os últimos três quartos do filme. Normalmente, quando os personagens tomam consciência da própria existência e percebem as diferenças entre si e os outros, isso geralmente leva a conflitos. Eles se separam. “O Nascimento Explosivo de Lugia” vai na contramão do que é típico, mostrando como é possível reconhecer essas diferenças e coexistir. “Você é você. Outras pessoas são outras pessoas. É óbvio que existem diferenças entre os dois, mas se você pensar dessa forma e abordar as outras pessoas dessa maneira, poderá evitar conflitos.” Você poderia explicar isso para uma criança em termos tão simples. Mas os adultos sempre pensam demais e tendem a tornar tudo desnecessariamente filosófico.
Diversos personagens aparecem no filme. Quando escrevo os diálogos e as emoções dos personagens, eu me torno eles. É fácil escrever diálogos e ações para os tipos de pessoas que conheço bem. Mas também há momentos em que minha personalidade muda para se adequar a certos personagens. É por isso que não consigo me mostrar para as pessoas quando estou trabalhando em uma história — eu entro no personagem e tento me mover como eles, murmuro suas falas baixinho. O que torna tudo ainda pior é que estou escrevendo animes, não uma história que se passa no mundo real. As pessoas que me conhecem pela primeira vez podem se assustar, pensando que sofro de transtorno dissociativo de identidade.
O GÊNERO DE LUGIA
Mas quando escrevi “O Nascimento Explosivo de Lugia”, me empolguei. Usei uma gama muito ampla de personagens; incluí muitos tipos de personalidade com os quais não estava familiarizado. Um colecionador, uma capitã de navio, uma ex-sacerdotisa, uma garota moderna que acabou de se tornar sacerdotisa, um senhor apaixonado por turismo e muitos outros… Na verdade, havia muitos outros personagens que cortei — e, como resultado, eles não apareceram na versão para os cinemas.
E, claro, havia Lugia, cuja voz é masculina — embora, na minha mente, Lugia tenha lados masculino e feminino que se entrelaçam.
As falas dos personagens são curtas, e justamente por serem curtas, essas falas precisam ser adequadas às suas respectivas personalidades. Mas eu não tinha a menor ideia de como escrever o diálogo da capitã do navio. Então, fui beber em um bar à beira-mar com alguns pescadores, para tentar entender como eles são. Mas a experiência de ser pescador varia de pessoa para pessoa, e eu queria ter uma ideia de como é uma capitã… mas é difícil encontrar uma nesse tipo de lugar. De qualquer forma, quando os pescadores começam a beber, é quando eles realmente se soltam e começam a falar o que pensam. Então, fui beber com alguns, mesmo que meu médico tenha me dito para maneirar na bebida.

O COMBUSTÍVEL PARA A CRIATIVIDADE
O álcool me ajuda a dar sentido a todos os diálogos que ficam girando na minha cabeça e a clarear a mente quando ela está confusa e dispersa. Por algum motivo, quando estou bebendo, consigo fazer as perguntas mais indiscretas para completos estranhos sem que isso acabe em briga. Na verdade, também não costumamos discutir. Deve ser essa mentalidade que diz: “pessoas são pessoas”, “eu sou eu”, então não importa o que alguém diga, não me incomoda.
Se não posso beber, tomo tranquilizantes (claro, aqueles que se compram normalmente em farmácias, não substâncias ilegais). Quando fico um pouco alterado, isso me ajuda a organizar meus pensamentos confusos. No entanto, quando se trata de álcool e drogas, é preciso conhecer os seus limites. Se você não os conhece, aconselho que se mantenha longe deles completamente.
De qualquer forma, é assim que conheço diferentes tipos de pessoas, e então as perspectivas de vários personagens me chegam em meio ao caos. Depois, tento dar sentido a elas com a ajuda de álcool e drogas. Quando estou escrevendo, quase não como, então costumo ficar tonto. Claro que, antes de entregar a versão final de um roteiro, leio tudo de novo quando estou sóbrio. Quando chego ao ponto de pensar: “Ok, acho que está bom”, envio o roteiro.
UM PADRÃO DE SUCESSO
Mas, neste caso, era um roteiro de filme, então houve uma grande reunião com muita gente, o que raramente acontece quando se trata apenas de um roteiro para o anime de TV de Pokémon. O primeiro comentário que ouvi na reunião me surpreendeu.
“Qual é a cena que supostamente deveria fazer você chorar?”
“O quê?”
Eu nunca tive a intenção de incluir uma cena que supostamente fizesse você chorar. Desde jovem, tento não escrever roteiros que forcem as pessoas a chorar. Se alguém chora por causa do meu roteiro, não são as minhas lágrimas, as lágrimas pertencem àquele espectador. Esse tipo de lágrima é o tesouro dele.
Se um roteirista está planejando “onde fazê-los chorar”, “onde fazê-los rir”, “onde colocar a revelação espetacular” — significa que ele está guiando todas as emoções do público. O público deve chorar quando sentir vontade de chorar, rir quando sentir vontade de rir e, se o filme for chato, ficar entediado e sair do cinema.
“Não vou falar muito durante a grande reunião Pokémon… Então, se alguma coisa acontecer, deixo com você”, eu disse ao diretor do filme [Kunihiko Yuyama] antes. Então, quando essa pergunta surgiu, ele se apressou e inventou uma resposta. “É quando a Misty salva o Ash de se afogar.”
Não disse nada, mas fiquei bem irritado — ainda me lembro, mesmo que a reunião tenha sido há uns 10 anos.
Quando assisto às grandes produções japonesas hoje em dia, as cenas que supostamente deveriam fazer você chorar — mas que não afetam o enredo — me chamam muito a atenção. Acho que muitos filmes seriam ótimos sem esse tipo de cena, mas os roteiristas exageram e se esforçam ao máximo para fazer o público chorar de qualquer jeito. Aposto que, durante essas reuniões de produção, sempre tem alguém que pergunta: “Qual é a cena que deveria te fazer chorar? Vamos colocar uma.”
De qualquer forma, o roteiro do segundo filme foi aprovado sem muitas revisões. Quase três anos se passaram. Mas o novo jogo ainda não estava pronto e, enquanto isso, os personagens do anime vagavam pelas Ilhas Laranja.
Apesar de tudo, o anime e os produtos continuavam vendendo bem. Mas até quando dá para continuar com a mesma fórmula? Um novo Pokémon aparece. Ash o captura. Ele luta contra outros treinadores em um ginásio ou no Torneio da Liga. A Equipe Rocket tenta impedi-lo. Ele supera o obstáculo e vence. Olhando do ponto de vista da reunião de produção: “tem a cena que te faz chorar, tem a que te faz rir, tem a espetacular e chamativa”. Sinto que tudo está se tornando uma repetição dessa mesma fórmula.

CRIANÇAS DEVEM CRESCER
Para o bem ou para o mal, não há espaço para os personagens crescerem. Crianças crescem rápido. Eu queria criar uma história que acompanhasse o crescimento delas. Mas se Pokémon está indo bem, acho que dá para dizer que não há necessidade de consertar algo que não está quebrado.
Mas Pokémon é diferente de Sazae-san ou Doraemon. O cotidiano que se desenrola interminavelmente em Sazae-san ou Doraemon também é precioso. Mas, pessoalmente, eu quero que Ash mostre algum desenvolvimento como personagem. Quero que um dia ele olhe para trás, para esses “dias de Pokémon”, com nostalgia. Essa é a razão pela qual eu fiz a Equipe Rocket, todos os Pokémon, Ash e todos os seus amigos interagirem uns com os outros. Eu até já estava planejando o último episódio, onde eles finalmente chegariam a algum tipo de conclusão.
No entanto, mesmo que um roteirista acostumado com Pokémon consiga introduzir algo novo na fórmula típica de um episódio… bem, infelizmente isso não é algo que esse roteirista conseguiria produzir em grande quantidade. Não sou capaz de escrever episódios assim de uma hora para outra — episódios que mostram Ash e seus amigos crescendo.
UM FINAL AGRIDOCE
Meses e anos se passam. Ash envelhece, e então, de repente, um dia, ele relembra seu passado. Ele se lembra com carinho da sua infância. Das aventuras que viveu com seus incríveis Pokémon, da amizade, da convivência.
Talvez Ash não tenha conseguido vivenciar essas coisas mais tarde na vida. No entanto, quando criança, havia Pikachu e muitos outros Pokémon, Jessie e James, e Mewtwo… E muito mais — o Ash idoso se lembra de tudo o que aconteceu durante suas aventuras de menino.
Ele consegue ouvir a voz da mãe. “Vá dormir, você vai partir amanhã.” Na manhã seguinte, ele é acordado pela mãe. Ele é um menino novamente, saindo de casa animado para começar uma nova aventura.
Ele está partindo em uma jornada não para capturar Pokémon ou se tornar um Mestre Pokémon, mas para descobrir o significado da existência, para descobrir como coexistir com os outros.
UMA SÉRIE INFINITA
Pensei em escrever um quarto filme, mas não consegui ter nenhuma ideia.
Se eu o escrevesse, usaria a história que planejei para o episódio final do anime. Os Pokémon se rebelariam, assim como Espártaco na Roma Antiga. Embora à primeira vista os Pokémon pareçam amigos dos humanos, eles perceberiam que estão sendo usados como escravos, o que levaria a uma revolta. Pikachu se tornaria o líder da revolta e acabaria lutando ao lado de Ash. A Equipe Rocket, que possui vários Pokémon sinistros (incluindo Meowth, que pode traduzir a linguagem Pokémon para a fala humana), tentaria mediar o conflito, mas faria um péssimo trabalho de interpretação e só pioraria as coisas…
Isso é tudo que me ocorreu. No entanto, um episódio como esse quebraria as regras do mundo Pokémon e tornaria impossível a continuação da série. Continuar indefinidamente é o objetivo da série. Se fosse possível produzi-lo, acho que teria que ser literalmente o último episódio.
Tentei pensar em um enredo diferente, mas não consegui.

PELO MENOS MAIS DEZ
Alguns dias depois da grande reunião de roteiro para “O Nascimento Explosivo de Lugia”, eu estava bebendo algo em casa, em Tóquio, de mau humor por algum motivo. Estava irritado com a série por continuar. Sei que é estranho considerar isso um problema, especialmente quando muitos outros animes são cancelados depois de apenas uma temporada. De qualquer forma, parecia que aquele era o momento de decidir o futuro de Pokémon, que a essa altura já tinha dois filmes. Então liguei para o diretor e perguntei: “Por quantos anos mais você acha que isso vai continuar?”
“Pelo menos dez”, ele respondeu.
“Mais dois anos é o meu limite. Acho que não consigo criar muitos mais episódios de Pokémon”, eu disse.
Enquanto escrevo este blog, Pokémon já tem quase 500 episódios — a série está no ar há mais de 10 anos. Tudo aconteceu exatamente como o diretor disse que aconteceria. Deve ter dado muito trabalho manter tudo funcionando.
A IMPORTÂNCIA DA MUDANÇA DE PROTAGONISTAS
Tudo o que estou escrevendo aqui agora são apenas meus pensamentos simples. Depois de 3 ou 4 anos, uma nova aventura Pokémon com um novo protagonista deveria começar. Com seus próprios temas — este novo Pokémon deveria se adaptar aos seus tempos. Dez anos atrás, havia uma criança assistindo Pokémon. Os gostos dessa criança mudarão conforme ela crescer, e um dia ela será um adulto levando seus próprios filhos ao cinema. Espero que ela assista Pokémon e o considere um filme adequado para adultos — isso me deixaria muito feliz. No entanto, se Pokémon permanecer o mesmo ano após ano, é difícil imaginar que ele aborde temas relevantes para os tempos atuais. Ainda assim, os jogos e os produtos licenciados se enraizaram firmemente em nosso cotidiano.
Se o anime Pokémon terminasse depois de mais de dez anos, tenho certeza de que o final seria completamente diferente de como imaginei seu episódio final há mais de dez anos.
Depois que o diretor me disse “mais dez anos”, comecei a ficar obcecado o tempo todo em como continuar Pokémon indefinidamente, e em algum momento desmaiei e fui levado para o hospital. Era o mesmo hospital onde uma das garotas que sofreu o “Choque Pokémon”, as convulsões que mencionei antes, estava internada.
Deitado ali, tive uma ideia para o terceiro filme. Não para “O Encanto dos Unown”, mas para uma visão diferente de Pokémon.

Dez meses depois destes relatos, Takeshi Shudo faleceu. Ele parecia ter ficado obcecado por Lugia nos últimos anos de sua vida. Mais especificamente, ele expressou profundo arrependimento por ter permitido que Lugia fosse dublado por um homem — como seria um ser que “cria toda a vida na Terra”, ele via Lugia como um “Pokémon maternal”.
Segue abaixo alguns de seus relatos sobre Lugia:
Era para X (nome provisório de Lugia) ser uma criatura diferente de um Pokémon, já que ele tinha que simbolizar a vida para os humanos também. Ele era um símbolo de vida, mas também um símbolo de coexistência. Originalmente, os Pokémon não tinham gêneros. Mas o X simbolizava as correntes oceânicas profundas e criou a vida na Terra. É um Pokémon maternal.
Como Lugia foi um Pokémon que eu criei exclusivamente para o novo filme, fiquei surpreso que ele tenha sido usado posteriormente nos jogos e na série de TV. Na verdade, eu pensava em Lugia como um Pokémon exclusivo dos filmes. Um dos arrependimentos que tenho sobre ter escrito o segundo filme de Pokémon foi não ter batido o pé quanto ao gênero atribuído a Lugia. Embora seu gênero não seja abordado no enredo, recebeu uma voz masculina… [Mas] é um Pokémon maternal…
Para piorar as coisas, usar um ator de voz masculino para Lugia foi uma decisão tomada durante uma grande reunião com muitos participantes.” Os comerciais já tinham ido ao ar. Era tarde demais — não podíamos mudar o Lugia de repente para uma fêmea… Mas quanto mais eu pensava sobre isso, menos conseguia imaginá-lo não sendo uma fêmea…
Eu estava me entupindo de álcool e drogas. Comecei a sentir que queria morrer.
No final de outubro de 2010, Takeshi Shudo desmaiou na sala de fumo de uma estação de trem e foi levado às pressas para um hospital, mas, tragicamente, não sobreviveu. A causa da morte foi uma hemorragia subaracnóidea, que é um sangramento cerebral cujos fatores de risco incluem cigarro e álcool. Foi o abuso de substâncias que alimentou sua escrita e deu origem a Lugia, mas, infelizmente, pode ter sido também o que o matou.

Nota pessoal: Descanse em paz, Shudo-sensei! E obrigado por ter criado meu pokémon preferido!
