
Este é um bate-papo entre Akira Toriyama, Kōzō Morishita (produtor de Dragon Ball Z), Yūji Horii (roteirista de Dragon Quest) e Kazuhiko Torishima, publicado no livro Akira Toriyama: The World, lançado em 15 de janeiro de 1990.
Toda a tradução e edição das imagens é de crédito de @TaikuFuru no Twitter/X.
Torishima: Como a carreira do Sr. Toriyama começou nos quadrinhos e se expandiu para áreas tão diversas quanto animação e jogos de computador, gostaria de perguntar sobre como a arte e os personagens dele são recebidos em cada uma dessas mídias, e onde residem suas características únicas.
Morishita: Mesmo comparado a outras obras, sinto que cada um dos personagens dele tem uma presença marcante. Seja um personagem de Dr. Slump ou de Dragon Ball, mesmo que apareçam em apenas uma cena, eles são extremamente charmosos. Até os atores acabam se apegando muito à obra…
Torishima: Mesmo deixando de lado a teoria de design de personagens, visualmente eles são muito distintos. Dá para notar a diferença num piscar de olhos, não é?
Toriyama: Para ser sincero, isso não ressoa muito comigo. Eu sinto que a distinção que faço é algo comum, e que outros autores também conseguem definir muito bem a individualidade de cada um de seus personagens.
Torishima: Por exemplo, quando surge um novo personagem, como funciona concretamente o processo desde a concepção na sua cabeça até ele virar um desenho no papel?
Toriyama: Claro que, no início, se for um inimigo, eu penso: “ele é um cara mau assim, que está planejando isso”. Eu tiro isso da mente para o papel, mas não penso tão profundamente sobre. No fim das contas, eu tento dar alguma característica que o diferencie dos outros. Eu realmente presto atenção no equilíbrio de preto e branco em toda a página. É por isso que sempre faço questão de colocar uma parte preta em algum lugar dos meus personagens.
Torishima: Isso é para que eles se destaquem em relação ao cenário?
Toriyama: Sim, exatamente.
Torishima: Há alguma dificuldade específica ao adaptar a obra original para animação?
Morishita: Como animação é basicamente um filme, se temos uma bela ilustração de ação no quadrinho, o problema é como conduzir a cena até chegar a essa ação. Os desenhos do Sr. Toriyama já parecem estar em movimento mesmo quando os vemos na revista, então fazê-los se mover na tela é extremamente difícil. Temos que fazê-los se mover ainda mais. Para isso, é necessário criar uma “antecipação”. Eles não se movem até o último segundo.
Torishima: Então vocês os mantêm parados para dar mais impacto ao movimento? O que você sente quando vê na TV o que você mesmo desenhou se movendo?
Toriyama: Eu penso: “Uau!”. Coisas como a forma de criar toda aquela empolgação são algo que você absolutamente não consegue fazer em um quadrinho.
Torishima: Você chegou a dizer que mudou a forma como a Nuvem Voadora voava no quadrinho depois de ver o desenho animado, não foi?
Toriyama: Sim, isso mesmo.
Torishima: Por outro lado, como foi no caso de Dragon Quest, que foi criado sob a premissa de que os personagens não se moveriam de forma alguma? A entrada do Sr. Toriyama nesse projeto mudou drasticamente o rumo dos videogames dali em diante, não acha?
Horii: Como a ideia era de que os monstros não se moveriam de jeito nenhum, precisávamos de ilustrações que fizessem o jogador pensar “Uau!” mesmo estando estáticas. Eu sabia que precisávamos confiar isso a um profissional de verdade.
Toriyama: Me falavam que era um RPG, mas eu não fazia a menor ideia do que se tratava porque nunca tinha jogado um. No começo, foi bem difícil de fazer.
Torishima: Porque, ao contrário do quadrinho, o jogo não vinha com uma personalidade definida para o personagem de antemão, certo?
Toriyama: Sim, e eu mal sabia como eles apareceriam na tela… Mas a partir de Dragon Quest II, eu já sabia como as coisas funcionavam, então ficou bem mais fácil. Mas, no geral, é bem divertido desenhar os monstros.
Torishima: Teve alguma coisa que você aprendeu fazendo isso e que acabou levando para o seu quadrinho?
Toriyama: Tem muita coisa, sim. No caso de Dragon Ball, por exemplo, isso afetou a história inteira de várias formas.
Horii: Eu acho que o motivo pelo qual os monstros desenhados pelo Sr. Toriyama fizeram tanto sucesso é que, embora eles ataquem você, há uma graciosidade ou carisma neles, e isso é um fator muito importante.
Toriyama: Talvez haja um pouco de simpatia neles, sim. Afinal, pode ser a influência da Disney, que eu assistia quando era criança… Acho que há uma influência de coisas que têm aquele aspecto adorável e impossível de odiar. Eu gostava desse tipo de animação americana desde muito tempo atrás, então acho que é reflexo disso também. De qualquer forma, fiquei tão impressionado ao ver 101 Dálmatas pela primeira vez que comprei o livro de ilustrações e ficava copiando os desenhos todos os dias.
Torishima: Os cachorros?
Toriyama: As pessoas também. Eu pensava: “Nossa, que traço bom”. Era realista, mas também estilizado. Mesmo sendo criança, me impactou muito.
Morishita: Isso foi mais ou menos em que época?
Toriyama: No ensino fundamental, talvez no 1° ou 2° ano. Eu gostava bastante de brincar ao ar livre nessa época. (risos) Depois, achei as obras do Sr. Osamu Tezuka muito interessantes. Eu pensava: “Desenhar de forma realista não é a única opção. É incrível que existam formas de desenhar que eu nunca imaginei.”
Torishima: O Sr. Toriyama é alguém que quase não usa materiais de referência, não é? E, no entanto, as máquinas que aparecem são bem desenhadas, e os animais também aparecem bastante.
Toriyama: Eu gostava muito de enciclopédias de animais, então ficava olhando para elas todo dia. Ainda tenho essa enciclopédia até hoje. Ela está bem gasta. Eu gostava tanto que conseguia memorizar perfeitamente o que estava em cada página. Eu ia com tanta frequência ao zoológico que era quase ridículo.
Torishima: Ah, então é por isso que você gostava tanto deles. Como você os enxergava de forma tão tridimensional, naturalmente não precisava de materiais de referência adicionais. É por isso que monstros e criaturas estranhas quase nunca parecem estranhos nas suas ilustrações.
Toriyama: Pode ser isso mesmo. O mesmo vale para as máquinas.
Morishita: Sendo assim, realmente dá a sensação de um “Mundo de Toriyama”. É como se fosse um parque de diversões. Nele, surgem infinitos personagens, e dá a impressão de que até mesmo as máquinas e os animais possuem suas próprias personalidades.
Torishima: É difícil falar apenas sobre as ilustrações de forma isolada. Mas acho que desenhar com diversão é a base de tudo.
Toriyama: Em relação aos desenhos, talvez seja algo que as pessoas não reparem muito, mas eu mudo os traços de forma consciente. Você entende o que quero dizer? Tenho dado um toque mais angular. Dessa forma, fica mais fácil passar uma sensação de velocidade.
Torishima: Entendo.
Toriyama: Eu não gosto de fazer a mesma coisa para sempre, então, nesse sentido, vou mudando constantemente o estilo do traço.
Torishima: Acho que esse é o segredo para não deixar o público enjoar, não é?
Toriyama: Sim. Meu desafio daqui para a frente é o corpo feminino, com certeza. (risos) É uma questão eterna para mim. (risos) Afinal, eu não consigo desenhar muito bem. (risos)
Quadrinhos, animações, jogos… A conversa se expande cada vez mais, vindo um assunto atrás do outro.
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