Entrevista com Akira Toriyama e Tsurube Shofukutei na revista Seventeen de abril e maio de 1981

Weekly Seventeen (nº4-5 de 1981)

CONTEMPLEM:

Conversa Especial de Ano-Novo: Akira Toriyama (Dr. Slump) VS Tsurube Shofukutei

Você conhece o mangá Dr. Slump, serializado na Weekly Shonen Jump? Quem não conhece está por fora! Hoje em dia, a tiragem dos seus volumes encadernados ultrapassa facilmente 1 milhão de cópias, ocupando o 1º lugar em popularidade. Quem conhece bem autor deste mangá, Akira Toriyama-sensei, sabe que ele é um grande fã de Tsurube. Sendo assim, promovemos o encontro cara a cara desses dois ídolos!

Polvo: Voa, voa, polvo…♪” (trocadilho com uma clássica canção)

Toriyama com Asas: Eu só não queria mostrar meu rosto…

Tsurube: Desculpa pelo porco!!

Senbei: Olá, leitores fiéis da Seventeen, eu sou o Senbei Norimaki.

Placa do Senbei: Procura-se uma noiva!

Monstro com Cabeça de Leão: 1332 (frequência da Rádio Tokai)

 

De repente, ouço meu próprio nome no rádio!

 

O encontro dos dois começou a partir desta carta:

Muito obrigado por ter chamado o meu nome de repente na semana passada. Fiquei tão surpreso que até caí de susto. Sinto que minha expectativa de vida diminuiu em 3 horas e 26 minutos.

Por favor, me ligue! Como é véspera do dia de entrega do prazo, com certeza estarei acordado. Na verdade, eu gostaria muito de participar do Jogo do Caça Zero, mas fico com pena das outras crianças que enviaram cartões, então pode ser uma ligação fora do ar mesmo.

Escrevi este cartão com tanta pressa que a minha caligrafia ficou horrível… Enfim, conto com a sua gentileza. (Será que chega aí até quinta-feira…?)

Porquinho: “Nossa, eu quero muito ser seu amigo!”

Akira Toriyama (25 anos)

Toriyama: P-prazer em conhecê-lo.

Tsurube: É a primeira vez que nos falamos de verdade, né!

Toriyama: Uau!

Tsurube: O que aconteceu?

Toriyama: Não, é que eu estou muito emocionado…

Tsurube: Para, eu é que estou impressionado. Você é incrível!

Toriyama: Ah, imagina…

Tsurube: Antes da gente ter essa conversa, achei que seríamos grandes amigos logo de cara assim que te ouvisse. (risos)

Toriyama: Só de poder falar com o Tsurube-san já estou muito feliz.

Tsurube: Acho que os leitores do outro lado estão pensando: “Por que essa combinação de pessoas para uma conversa?”.

Toriyama: Pois é.

Tsurube: Foi em maio, né? No meu programa (o programa de rádio Midnight Tokai), sei lá por qual razão, comecei a receber um monte de recortes de mangá e caricaturas minhas enviados pelos ouvintes. Aí, quando fui ver, tinha uma caricatura minha desenhada por você correndo junto com um porco. (risos)

Toriyama: Ah. Me desculpe por aquilo.

Tsurube: Não precisa se desculpar por nada! Eu fiquei mega feliz! Como eu não costumo ler muito mangá, não sabia direito, mas quando fui perguntar ao meu redor, me disseram que era um mangá incrivelmente popular. Todo mundo me deu bronca: “Como assim você não conhece?!” (risos) Aí, depois de um tempo, acabei descobrindo que esse tal Toriyama-san morava em Nagoya. Então pensei: “Bom, mesmo se não der em nada, vou tentar chamar ele pelo programa!” e foi assim que combinamos.

Toriyama: Naquela hora, eu fiquei realmente surpreso. Eu estava trabalhando justamente ouvindo rádio. Por uns 3 anos, quase toda semana sem falta, eu ouvia. E aí, do nada, chamam o meu nome no rádio… Fiquei chocado! (risos)

Tsurube: É que eu chamei com uma voz bem alta, né! (risos)

Toriyama: Sem querer, eu até deixei a caneta cair da mão. (risos)

A partir de abril, Dr. Slump vai ganhar um anime!

Eu não conseguia nem falar com garotas!

Tsurube: Outro dia apareceu na TV um programa chamado “Computador do Primeiro Amor”. Eu odeio esse tipo de programa. Fazer piada com o primeiro amor das pessoas…

Toriyama: O que aconteceu?

Tsurube: A pessoa por quem eu fui apaixonado apareceu no programa. Eu gostava pra caramba dela, mas ela nem ligava pra mim. (risos) Eu queria que o primeiro amor ficasse guardado só como uma boa recordação. (risos)

Toriyama: É verdade, né…

Tsurube: Além do mais, como a outra pessoa também é uma comediante, pensei: “Aposto que vai dizer algo legal”, mas ela soltou: “Pah! Ele era um cara realmente sem graça de”. (risos)

Toriyama: Que crueldade, né?

Tsurube: Minha bochecha ficou até contorcendo de vergonha! (risos) Mas enfim, depois de uma história dessas, quero saber: como foi o seu primeiro amor, Toriyama-san?

Toriyama: E-eu… sou péssimo com esse tipo de coisa.

Tsurube: Como assim?

Toriyama: Sabe, até hoje eu nunca nem segurei na mão de uma garota.

Tsurube: É mesmo?! Sério?! E quando foi o seu primeiro amor?

Toriyama: Meu primeiro amor foi por volta da 4ª série do ensino fundamental. Naquela época, acho que eu era bem proativo, mas a partir do momento em que comecei a desenhar e me fechar no meu próprio mundo, toda a minha confiança evaporou completamente. (risos) Eu tenho a lembrança de ter feito uma declaração meio indireta e cheia de rodeios…

Tsurube: Esse tipo de coisa é meio… mas provavelmente a outra pessoa nem percebeu.

Toriyama: Pode ser. (risos) A gente acha que se expressou 100%, mas por causa do embaraço, a cabeça fica tão confusa que só achamos que dissemos algo claro.

Tsurube: Eu achava que estava me expressando. Mas a pessoa do meu primeiro amor de quem falei há pouco não sabia de nada. (risos)

Toriyama: A nossa geração é basicamente assim: uma geração que não consegue dizer as coisas cara a cara pra outra pessoa.

Já é uma relação que vai além de simples amigos.

Tsurube: Toriyama-san, você tem 25 anos agora, né? Eu tenho 29. Somos praticamente da mesma geração. Eu também era bem ingênuo e sem jeito antigamente.

Toriyama: É mesmo?! De verdade?

Tsurube: Sério, eu era muito puro. Meu primeiro beijo, por exemplo, foi com a minha esposa.

Toriyama: Hã?! Sério? Não acredito!

Tsurube: Foi quando eu era universitário. Estava chovendo e nós dois dividíamos um guarda-chuva. Ela estava ali normal, sem pensar em nada, mas por dentro meu coração estava uma bagunça completa. Só conseguia pensar: “O que é que eu faço?!”. (risos)

Toriyama: Como conhecimento teórico, você já sabia o que fazer?

Tsurube: Sabia, de tanto ouvir o pessoal falar até criar calo no ouvido, então eu sabia que aquela era a oportunidade perfeita. (risos) Mas, a partir dali, ninguém tinha me ensinado o que fazer. (risos)

Toriyama: Parece ser difícil mesmo…

Tsurube: Mas aí veio uma rajada de chuva bem forte, o guarda-chuva virou do avesso, e bem na hora em que o rosto dela se aproximou, no momento em que pensei nisso, eu pulei pra cima dela! (risos)

Toriyama: E aí, como foi?

Tsurube: Como eu era super ingênuo e puro na época, pensei: “Já que eu beijei essa garota, agora sou obrigado a me casar com ela!” (risos)

Toriyama: O primeiro beijo ter sido com a sua própria esposa… isso é algo de dar inveja, né.

Tsurube: Toriyama-san, você disse que nunca nem segurou na mão de uma garota, mas deve ter um tipo de garota que você gosta, não é?

Toriyama: Como eu sou reservado e introvertido, gosto de garotas animadas e que sorriem bastante.

Tsurube: Se fosse uma famosa, que tipo de garota seria?

Toriyama: Bem, deixa eu ver… Eu gosto da Noko Konoha-san

Tsurube: É uma vibe meio parecida com a Arale Norimaki, né! (risos)

Nota: Noko Konoha (木の葉のこ) é uma atriz e cantora japonesa nascida no mesmo ano em que Toriyama (1955)

Toriyama-sensei completamente nervoso ao participar do programa de rádio.

Quero ir levando a vida do meu jeito!

Tsurube: Toriyama-san, você se tornou um mangaká logo após se formar na escola?

Toriyama: Não, depois de me formar no ensino médio, trabalhei por cerca de 3 anos com coisas relacionadas a design e só depois disso estreei como mangaká.

Tsurube: Então você estreou quando já tinha entrado em uma empresa?!

Toriyama: Ah, bem… eu acabei largando a empresa no meio do caminho… É que eu só chegava atrasado todos os dias.

Tsurube: Mas você queria virar mangaká, por isso largou?

Toriyama: Pois é. Eu queria tentar desenhar um mangá pelo menos uma vez. Pensei: “Seria ótimo se eu conseguisse ganhar a vida fazendo algo que gosto”. Mas eu nunca pensei que conseguiria entrar num mundo tão incrível como o dos mangás.

Tsurube: Entendo. Eu também nunca pensei que conseguiria entrar num mundo desses, mas quando você entra de cabeça, é exatamente assim que as coisas são, né. Sempre digo que, se for chamado para um festival cultural, eu vou. Primeiro, você tenta fazer o trabalho que deu vontade de fazer. Se não der certo, é só corrigir o rumo.

Toriyama: Eu penso da mesma forma. Não é como se eu quisesse me apegar a ser um mangaká pelo resto da vida. Pode parecer um pouco errado dizer isso, mas acho perfeitamente bem viver no improviso, sem ficar se preocupando demais com o que está ao redor. Viver tentando fazer as coisas só no plano perfeito é algo que a gente acaba nem conseguindo no fim das contas.

Tsurube: Eu quero viver exatamente assim, me dedicando ao máximo, mas indo meio que no improviso. Sabe, quando eu me encontro com cantores famosos, eu digo: “Se você aparecer na TV, assista ao Tsurube-san!”. (risos)

Toriyama: É o que você costuma dizer nas entrevistas também, né.

Tsurube: Claro que é uma piada, mas outro dia, quando liguei a TV no meio da tarde, a Hiromi Ota disse do nada: “Tsurube-san, você está assistindo?!” e acabei acenando e ficando com a cara toda vermelha! (risos) Mas sabe, acho que isso é ótimo. Quero que você mantenha sempre essa vontade de fazer as coisas.

Nota: Hiromi Ota (太田裕美) é uma cantora popular, considerada um ídolo no Japão durante a década de 1970, e é vista como representante daquela época.

Toriyama: Também acho que esse tipo de postura é muito importante.

Tsurube: Por isso, Toriyama-san, você não quer mudar o seu nome para o pseudônimo “Tsurube Toriyama” a partir da edição da semana que vem? (risos)

Toriyama: Hã?!

Tsurube: Como seus mangás vendem pra caramba, a cada volume que sair eu também vou ficando mais famoso. (risos)

Toriyama: A-aí você me quebra, né? (risos)

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