Mainichi Graph (20 de dezembro de 1981)
Por que este ano? O fenômeno da grande febre de Arale.
O autor, Akira Toriyama, diz: “Fico sem jeito com todo esse barulho!”.
Como ele é muito ocupado e não gosta de aparecer, foi muito difícil conseguir uma entrevista com o quadrinista superpopular deste ano, Akira Toriyama. No entanto, em meio a uma agenda absurdamente lotada entre o fim de ano e o Ano Novo, finalmente conseguimos uma hora com ele. Insistindo bastante durante seu período de confinamento no Yamanoue Hotel em Surugadai, Tóquio, como se tivéssemos usado uma serra elétrica para abrir a tampa de uma lata muito dura para nos encontrar com ele.
Tradução e Edição: @TaikuFuru
Adaptação: @CanalBudokai
Imagens: @kamesenryugoku
Se o nome dele era Senbē, ela só podia ser Arale
De onde vem o nome Norimaki Senbē, o criador da Arale, que se tornou tão popular em Dr. Slump?
Achei que colocar um nome terminado em “bē” seria engraçado. Então pensei que se fosse “Senbē” seria ainda mais engraçado, então decidi o primeiro nome e, depois disso, aproveitei para decidir o sobrenome “Norimaki”.
Nota: 煎餅 (senbē) é um tradicional biscoito ou aperitivo japonês feito à base de arroz. Já 海苔巻き (norimaki), é o termo em japonês para qualquer alimento ou prato da culinária do Japão que seja enrolado ou envolto em folhas de alga marinha chamada “nori”. Senbē é um destes alimentos!
E então, logo em seguida veio a Arale…
Sim, pensei que se o nome dele era Senbē, ela só podia ser Arale…
Nota: あられ (arare) um tipo de biscoito japonês pequeno, feito de arroz glutinoso e temperado com molho de soja.
A premissa da história ser centrada nesses dois já estava decidida desde o início?
Não, da minha parte, a intenção era fazer a Arale aparecer uma única vez. Como o protagonista era o Dr. Slump (Norimaki Senbē), dei esse título à obra. No entanto, o meu editor me disse que seria melhor ter uma garota como protagonista, e acabou que a Arale se tornou a personagem principal. Mas, no começo, eu tinha dificuldades para desenhar garotas.
Mas você desenha garotas tão bem. Era tão difícil assim…?
Ah, como se trata de um quadrinho voltado para garotos, pensei que o protagonista deveria ser homem. Como eu só lia quadrinhos na época do ensino fundamental, meu modo de pensar devia ser antiquado; me perguntava se estava tudo bem desenhar uma garota.
Então você não estava a par quando os quadrinhos voltados para garotas estouraram e as mulheres começaram a desenhar para revistas voltadas para garotos?
Sim, eu não acompanhava nada disso. Foi só recentemente, depois de começar a desenhar quadrinhos, que voltei a ler de novo.
Quando você fez da Arale a protagonista…
Pois é, na época eu fiquei com um pouco de vergonha de colocar uma menina como protagonista. É meio embaraçoso desenhar meninas.
Mas a Arale é tão fofinha, não é?
Sei não…
Ouvi dizer que as pernas da Arale foram ficando cada vez mais curtinhas e que você estava preocupado com isso…
Fiquei preocupado, sim. Mas, já que era o caso, desencanei e desenhei desse jeito mesmo.
Não gosto de desenhar prédios e coisas do tipo
Por conta do tamanho dos quadros, as pernas acabam ficando mais curtas com o tempo, né?
Foram encolhendo, né? Encolheram bastante! No começo, ela tinha de três e meio a quatro cabeças de altura, mas, agora, tem apenas duas. Só que acho que, assim, é mais fácil de movimentar e fica mais fofinho.
E sobre o cenário da Vila Pinguim, como ele surgiu?
É que eu não gosto muito de desenhar prédios e coisas do tipo; acho meio sem graça. Já que era pra desenhar, pensei que seria melhor um lugar amplo, com montanhas. E o nome da vila foi totalmente aleatório.
A Escola Secundária Municipal da Vila Pinguim tem 65 alunos; isso foi baseado na sua própria experiência?
Não, é imaginação. Minha casa fica no interior, mas é a dez minutos de trem de Nagoya, então não é tão interior assim.
O que acho curioso é que o cenário tem o aconchego do interior, mas com um bom senso urbano. Será que é por causa de Nagoya?
Não, acho que não tem nada a ver. O problema é que, se for só interior, a história fica engessada, e se for só cidade grande, acontece o mesmo. Por isso, fiz de um jeito flexível desde o início, mas nunca imaginei que duraria tanto tempo
Eu gosto de brincar com crianças
Atualmente, Dr. Slump já tem cinco volumes lançados, mas, para ser honesto, o mais divertido e incansável de ler foi o primeiro volume.
É verdade! Na época dos volumes 1 e 2, até para mim era divertido desenhar.
E agora?
É que, hoje em dia, já não consigo passar a noite em claro com tanta facilidade…
Passou dos 25 anos, o corpo sente…
Pois é, continuo firme! No geral, desenhar ainda é divertido. O que é um pouco cansativo é pensar na história.
Como surgiu o N’cha?
As pessoas dizem “konchi wa” em vez de “konnichiwa”, não é? Eu só encurtei isso para “N’cha”. Não foi algo planejado especificamente como parte da linguagem da Arale. Só pensei que uma garotinha como ela falaria assim, de um jeito meio enrolado.
Nota: Pra deixar ainda mais claro, o “N’cha” é uma versão extremamente abreviada e infantil da saudação casual: こんにちは (konnichiwa), que pode ser entendida como “Boa tarde” ou “Olá”.
Tenho a sensação de que você capta muito bem a linguagem das crianças…
É porque eu gosto de brincar com crianças. E também sou uma pessoa bem simples…
Que nada! Olhando os quadros, vê-se que é tudo muito bem calculado.
Não, não é calculado não! É puro desespero na hora de desenhar.
Não acho que seja bem assim, talvez seja algo intuitivo. Mudando de assunto, aparecem muitas invenções e engenhocas estranhas, né? Seria isso um desejo seu?
Na verdade, eu me coloco no lugar do Doutor e penso: “se existisse algo assim, seria engraçado” ou “daria para desenrolar uma história”. Quando vejo que a história se desenvolve bem e fica interessante, aí, sim, faço o design.
Acho que há uma influência do Yamagami Tatsuhiko. Existem toques de comédia e toques sérios, e às vezes percebe-se quadros em que você está apenas se divertindo.
Pois é. Não era algo que eu fazia conscientemente, mas gostava do trabalho dele. Especialmente da fase inicial de Gaki Deka.
Nota: がきデカ (Gaki Deka) foi um mangá lançado na revista Weekly Shōnen Champion em 1974 e virou febre no Japão com o protagonista infantil cômico chamado Komawari-kun.
O que achava mais engraçado?
O fato de ser absurdo e totalmente sem noção. A forma como ignorava tabus e usava humor apimentado e grotesco.
Mas o seu quadrinho é bem para família, não é?
Não é bem assim, sabe… Eu acho que desenho bastante disso. Embora ultimamente esteja mais suave…
Acho que é um quadrinho sobre uma garotinha incrível…
Para mim, que desenha aquilo, é meio embaraçoso. Por outro lado, também daria vergonha desenhar coisas eróticas ou grotescas. Eu mesmo acho que desenho com um olhar bem frio e objetivo.
Os fãs dizem que seu estilo se parece com o de algum autor de quadrinhos americanos…
Isso não procede. Eu quase não conheço autores de quadrinhos americanos. É comum me dizerem coisas como: “você deve entender muito de quadrinhos americanos” ou “deve ter uma quantidade enorme de material de referência”. As ilustrações estrangeiras até têm detalhes minuciosos, mas são totalmente sem graça. Por isso, acho que os quadrinhos americanos só têm graça mesmo para quem já é fã.
A arte de desenhar é uma questão muito mais intuitiva, não é?
É verdade. Por exemplo, tendo apenas uma simples foto, o resto já fica praticamente pronto por padrão, então é divertido criar e pensar por conta própria. Não há necessidade de ficar feito um louco reunindo materiais.
Eu queria me tornar um ilustrador
Você não pensava em se tornar um pintor ou um quadrinista?
Eu era apenas uma criança que gostava de desenhar. Depois de crescer bastante, pensei: “Quero ser um ilustrador”. Não achava que me tornaria um quadrinista.
Em que ritmo você desenha atualmente? Só esta obra já deve dar muito trabalho, certo?
Pois é. Se eu apertasse os horários, provavelmente conseguiria fazer mais uma obra, mas como as coisas ficariam muito dispersas, estou me concentrando em apenas uma. Além disso, sou do tipo que só engrena quando chega perto do prazo final. Até lá, fico pensando nas coisas sem pressa, então não tenho tantas folgas.
Para esse tipo de trabalho, o tempo livre é importante, não é?
Se eu tentar fazer tudo de uma vez sem parar, vou ficar esgotado…
Que tipo de leitor você tem em mente ao desenhar?
Ah, não chego a pensar nisso. Não é para ninguém em específico, mas estou desesperado tentando desenhar de um jeito que eu mesmo ache, no mínimo, interessante. Não tenho tempo para pensar nos leitores.
Que tipo de quadrinhos você acha divertido?
Vejamos… gosto bastante do absurdo que só os quadrinhos conseguem proporcionar. Não gosto muito de coisas excessivamente focadas na vida cotidiana comum.
O personagem Suppaman é uma paródia do Superman, certo?
Aquele é um personagem que eu já tinha há bastante tempo. É anterior a Dr. Slump, e eu pretendia usá-lo em algum momento. Como tenho bastante familiaridade com o Superman desde criança, pensei em fazer uma sátira com isso.
E depois apareceu o Parzan, né?
Ele também. O Tarzan é um verdadeiro aliado da justiça, né? Pensei que seria engraçado se fosse o inverso.
Que tipo de programa de TV você assistia?
Astro Boy, Tetsujin 28-gō e também a ficção científica com marionetes chamada Thunderbirds. Eram programas bem populares.
Não penso muito no futuro
E quanto a Nagoya, sua terra natal?
Eu nem penso nisso. Sou do tipo que não tem muito apego à terra natal. Só que, para comprar coisas, é um pouco inconveniente. Por isso, vir para Tóquio dá uma sensação de estar viajando.
Viagem escolar? (risos) Acho que está mais para uma viagem escolar bem cansativa.
É verdade. (risos) Afinal, fico trancado trabalhando no hotel.
Você pretende continuar sendo quadrinista daqui para a frente?
Ah, bem… para falar a verdade, não penso muito no futuro. Se der errado, deu. Penso que, se eu tentar o meu melhor e não funcionar, basta fazer outra coisa. De qualquer forma, como gosto de desenhar, gostaria de continuar desenhando nem que seja como hobby. Mas, se for para escolher, desenhar ilustrações únicas de forma concentrada combina mais com o meu estilo.
Que tipo de desenho você gosta?
Para desenhar eu mesmo, gosto de algo com um toque um pouco cômico, um pouco detalhado e estilizado.
Estou ansioso para ver o que você vai desenhar a seguir, mas Arale ainda deve continuar por um tempo, né? Os leitores não vão deixar você parar…
Pois é. Fico até sem jeito com todo esse barulho em volta. Não é um quadrinho tão grandioso assim, então não sinto tanta pressão.
E aquela arma que aparece no seu quarto dentro do quadrinho?
Aquela é uma model gun. É um hobby meio solitário e obscuro. Mas montar modelos de plástico, aos poucos, é bem divertido.
Hobby obscuro? Falando assim, faz pensar que a vida de um quadrinista é meio obscura (risos)
É uma vida bem obscura, sim. Nada saudável. (risos) Além disso, só consigo render à noite. Odeio quando estou desenhando, passo a noite em claro e a luz do sol começa a entrar de repente. Dá uma sensação estranha de: “nossa, já amanheceu…”

EXTRA
Desejando escapar da febre da Arale, este autor desapegado publicará uma história original totalmente colorida chamada ESCAPE na edição extra em 14 de dezembro na revista Jump.






