FUSION PRODUCT (julho de 1981)

Na edição de julho de 1981 da revista Fusion Product, temos uma crítica de Tomohiko Murakami, que foi repórter do departamento cultural da sede do Sports Nippon em Osaka e, posteriormente, se tornou editor-chefe da revista Mankinchou (漫金超). Na época, Murakami tinha 28 anos e estava desanimado com mangás, não conseguindo mais sentir a magia de lê-los com empolgação a cada semana ou mês.
Eis que surge Dr. Slump e, ainda em seu primeiro ano, conquista milhões de fãs, de crianças a adultos. Com uma pegada dos mangás cômicos para meninos dos anos 50, mas com uma arte mais moderna, limpa e “na moda”, assim como uma velocidade dinâmica de narrativa, com um mundo criativo que mistura sci-fi e sobrenatural, Murakami rasgou elogios a Dr. Slump ainda em 1981.
Deixo aqui uma tradução dos dizeres de Murakami, pois é muito interessante encontrar uma crítica de um adulto, ainda por cima um repórter, alguém mais crítico aos entretenimentos, elogiando absurdamente o frescor criativo de Dr. Slump no começo dos anos 80.
Resumo dos Mangás dos anos 80 – Parte 1
1980: O Leitor Solteirão
Tomohiko Murakami
(Editor-chefe da revista de mangá Mankinchou)
★ O lançamento da Mankinchou foi o fruto do desejo de pessoas que estavam prestes a entrar na casa dos trinta anos de criar e publicar mangás com as próprias mãos. Sendo assim, como o mundo do mangá de 1980 se refletiu nos olhos do Sr. Murakami, em seu primeiro ano como editor?
■ Um ano em que aprendi o que significa “ler e descartar”
No ano passado, nunca foi tão exaustivo ler mangás. Talvez em parte porque eu e meus companheiros começamos a editar uma revista e ler passou a fazer parte do meu trabalho, mas, mesmo olhando para trás agora, é inegável que obras como Homonsha e Mesh de Moto Hagio, Wata no Kunihoshi ou Hinagiku Monogatari de Yumiko Oshima, e Umibe no Cain de Minori Kimura são obras-primas que representam o ano de 1980. Não há margem para dúvidas sobre isso. No entanto, se me perguntassem “por quê?”, eu imediatamente ficaria sem saber o que responder.
Não sei dizer com clareza ou dar um motivo exato do tipo “é por causa disso ou daquilo”. Posso dizer, sem hesitar, que não tenho essa autoconfiança. Enquanto lia as obras publicadas, eu certamente me emocionava, achava interessante e tinha certeza de que eram obras-primas. Porém, assim que terminava a leitura, aquela emoção ou o conteúdo divertido desapareciam completamente da minha mente. Restava em minhas mãos apenas o fato bruto, intuído, de que “era uma obra-prima”, como se eu tivesse sido guiado a isso. Será que não é uma tremenda falta de educação com os autores falar dessa forma sobre obras que só consegui ler dessa maneira?
Até então, o ato de ler mangá não era algo assim para mim. Pelo menos, eu nunca havia conseguido compreender o que significava “ler e descartar”. Eu sentia que, se lesse um mangá, algo certamente permaneceria em minhas mãos, algo seria deixado em mim. Queria passar isso adiante para outra pessoa o mais rápido possível; queria falar ou escrever sobre mangá. Eu começava a conversar com outras pessoas que também queriam falar sobre mangá da mesma forma, trocando impressões sobre o que havíamos absorvido mutuamente, confirmando coisas, tendo dúvidas, contestando, descobrindo… Todo esse processo, para mim, era o que significava “ler mangá”.
Mas o ano passado foi diferente. Eu lia os mangás, os digeria um após o outro, sem o impulso de querer recomendá-los a alguém ou de transmiti-los a outrem, e sentia como se estivesse apenas os devorando. Sinto que foi a primeira vez que entendi o que significa “ler e descartar”, e o quão insosso e vazio isso é. Não deixar absolutamente nada em mim após ler um mangá… Será que as pessoas esquecem instantaneamente o que leram e o que as emocionou?
■ Obras sobre as quais não canso de falar
Por outro lado, é claro que também houve várias obras que me deixaram com um forte impulso de falar sobre elas.
Dr. Slump, de Akira Toriyama, que apareceu de repente na Weekly Shonen Jump, causou uma forte impressão com o seu estilo de desenho refinado, uma atmosfera acolhedora e um senso de humor renovado. A novidade de Akira Toriyama deixou claro que a era de Tatsuhiko Yamagami e Tsubame Kamo havia chegado ao fim. O tom inovador de Toriyama trazia à memória a “antiguidade” dos mangás juvenis da década de 1955 a 1964. Dr. Slump é surpreendentemente semelhante às obras nascidas na era de ouro do mangá juvenil, como as de Katsuhiro Otomo, Hino Maru-kun, Asano Riji e Hatsumei Sonsa. É claro que a narrativa, o traço e o ritmo se tornaram muito mais modernos e inteligentes, e a própria qualidade do humor mudou, mas o tom fundamental é, sem dúvida, o do “bom e velho mangá juvenil”. O surgimento de uma obra assim acabou sendo um ponto cego. Leitores mais velhos e experientes como nós ansiavam secretamente por esse tipo de obra no fundo do coração, mas jamais imaginávamos que ela também seria tão calorosamente apoiada pelos jovens leitores de hoje.
A história se passa em um lugar fictício chamado “Vila Penguin”, onde vivem o inventor Senbei Norimaki, a garota androide Arale-chan, seu irmão Gatchan, Taro-kun, Peasuke-kun, a professora Yamabuki e muitos outros personagens em um ambiente de ficção científica repleto de gags pastelão. O que é impressionante é a precisão dos detalhes de moda, objetos e adereços, a estranheza e a elegância da mistura entre paisagens naturais e objetos de SF/Arte, além das influências de animações americanas e pop art, que juntas criam um mundo único. E as ilustrações são incrivelmente fofas.
Eu, como leitor, li essa obra sem me sentir afetado de forma negativa. O protagonista, Senbei Norimaki, tem 28 anos, exatamente a mesma idade que eu tinha na época. Arale-chan tem 13 anos, e Senbei é o pai adotivo dela. Mas a relação deles não é exatamente a de pai e filha tradicionais; é uma convivência muito mais livre e solta. No meu caso, o fato de Senbei ser um homem solteiro da mesma idade me fez tomar consciência relativa do meu próprio envelhecimento e estado civil. Em vez de ver aquilo como pura fantasia, ver um solteiro como Senbei lidar com uma criança me fazia pensar na questão do casamento de forma inevitável todas as vezes que lia. Não conseguia esquecer a realidade enquanto lia. No meu caso, perceber que “o mundo do mangá tem mais realidade” acabou tornando a experiência muito mais divertida.

