Entrevista com Akira Toriyama na Combat Magazine de janeiro de 1982

Combat Magazine (janeiro de 1982)

CANAL ZERO

MODEL GUN PEOPLE – VOL. 3

Entrevista Direta com Mangakás Populares

 

A Edição de Akira Toriyama

Entrevistador: McNekohachi

A pedido de milhares de leitores gritando “Peguem o tio Akira!”, a Saki-chan finalmente descobriu onde ele estava se escondendo. Sob ordens da Comandante Saki-chan, o agente McNekohachi conseguiu rastrear e invadir o local onde o autor estava confinado trabalhando, em Tóquio. Ele o tirou de lá com maestria e o levou para uma cafeteria. Contudo, Torishima-san, o temido editor da Shonen Jump conhecido como “O Rejeitador”, apareceu de surpresa, dando início a uma discussão acalorada.

A seguir, apresentamos a gravação dessa conversa secreta.

 

Perfil de Akira Toriyama

Nome real: Akira Toriyama. Nascido em 5 de abril de 1955, nos arredores da cidade de Nagoya, província de Aichi. Começou a desenhar mangá há cerca de três anos e meio e estreou na Weekly Shonen Jump com Dr. Slump. Atualmente tem 1 assistente, chamado “Hisuwashi”. Seus hobbies incluem model guns, plastimodelismo, videogames, etc. Diz ter uma personalidade alegre e que nunca se deixa abater. Solteiro.

Toriyama: Eu compro a C★M (Combat Magazine) desde a primeira edição.

Torishima: Ele mesmo quis essa entrevista, é a primeira vez que isso acontece.

Nekohachi: Ah, muito obrigado! Indo direto ao ponto, a popularidade da Arale-chan é incrível, não é? Como você se sente, sendo o criador dela?

Toriyama: Ah, não sinto muito esse tipo de coisa. Só penso: “Ah, essa é a Arale-chan”.

Nekohachi: Como se outra pessoa a tivesse desenhado?

Toriyama: Sim, exatamente. (risos) Penso coisas do tipo: “Nossa, tem tanta coisa dela por aí”.

Nekohachi: Ela até gerou várias gírias populares, não é?

Toriyama: Eu não faço ideia do porquê coisas assim pegam. Eu mesmo nunca digo essas coisas. Dá até um pouco de vergonha. (risos)

Nekohachi: A propósito, de onde vieram as ideias para Dr. Slump?

Toriyama: Ideias? Humm… na verdade, como o desenvolvimento da história é totalmente no improviso, eu só vou desenhando sem pensar muito… Não tenho assim muitas “ideias” pré-planejadas.

Nekohachi: Sua própria personalidade se reflete nos personagens? Como o Senbei-san, por exemplo?

Toriyama: Um pouquinho deve ter, né?

Torishima: Bastante, na verdade! (risos)

Nekohachi: Sendo assim, a professora Midori é a sua mulher ideal?

Toriyama: Sim, isso mesmo. É bem próxima do meu ideal.

Nekohachi: Dizem que você desenha em Nagoya, mas há algum motivo para isso? Sei que é uma pergunta meio formal.

Toriyama: Não tem motivo especial, é só porque ficar em casa dá menos trabalho. Tipo para comer ou tomar banho.

Nekohachi: Entendo. Sabe, daria para arranjar uma esposa por lá, não seria uma boa opção?

Toriyama: Esse tipo de coisa não acontece fácil. Além disso, Tóquio tem gente demais. Eu não gosto muito de lugares cheios, você esbarra nas pessoas só de andar. (risos) Não dá para andar do jeito que quiser. Ficar em casa não atrapalha em nada meu trabalho, então acabo fazendo tudo por lá mesmo.

Nekohachi: A que horas você costuma acordar hoje em dia?

Toriyama: Por volta das 2 ou 3 da tarde.

Nekohachi: Quê? De tarde?!

Toriyama: É, e costumo ir dormir depois das 7 da manhã. Eu diria que sou uma pessoa totalmente noturna.

Nekohachi: É quando o motor pega no tranco?

Torishima: Ele é fraco de manhã. Diz que só conseguiria desenhar mangás de manhã recebendo soro na veia. (risos)

Nekohachi: E a que horas você começa a trabalhar? Depois que anoitece?

Toriyama: Hmmm, para mim o motor pega com força total mesmo depois da meia-noite. Até lá, fico só enrolando ou vendo TV.

Nekohachi: E quando surgem as ideias (para a história)?

Toriyama: Elas não saem a menos que eu force a cabeça para pensar. Não vêm num estalo. Na maioria das vezes, decido o rumo geral da história, penso nos detalhes bem por cima e depois… vou no improviso total.

Nekohachi: E é aí que o Torishima-san começa a dar um monte de palpites e fazer exigências.

Torishima: Qual é, eu dou só uns pitacos! Se isso é bom ou ruim, aí é outra história.

Nekohachi: Torishima-san parece mais um empresário de celebridade do que um editor.

Torishima: Sou editor e empresário ao mesmo tempo. Faço de tudo um pouco.

Nekohachi: Por falar nisso, qual é a relação de vocês com o George Tokoro?

Nota: Takayuki Haga (芳賀 隆之), conhecido como George Tokoro (所ジョージ) é um famoso comediante, personalidade da televisão, cantor, compositor e dublador japonês, sendo uma das figuras mais conhecidas e queridas do entretenimento no Japão, famoso por seu estilo descontraído.

Torishima: Há quantos anos foi isso? A revista “Seventeen” pediu para o Toriyama preparar uma ilustração de cartão de Ano Novo para ser publicada. A ideia inicial era fazer para o grupo Gamu (por serem de Nagoya), mas ele não os acompanhava muito. Como o Toriyama é fã do George Tokoro, propus: “Então desenha para o Tokoro-san mesmo para sair nas páginas da revista”. E aí o próprio Tokoro-san…

Nekohachi: Tokoro-san também ama model guns, né?

Toriyama: Sim! Ele adora!

Nekohachi: Segundo Tokoro-san e Akimoto-sensei, você seria conhecido como “Esquadrão Ingram”.

Toriyama: “Eu!? Tenho uma, sim, da MGC. Mas não chega a ser um esquadrão, não. Sou só eu. (risos) Não tem ninguém à minha volta que se interesse por isso. É que eu não gosto muito de ter assistentes, sabe… Então acho que sou um entusiasta razoável, só isso.”

Nota: イングラム (Ingram) aqui se refere ao Ingram M11, uma submetralhadora que a MGC (Model Gun Corporation) havia lançado como model gun em 1981.

Nota²: Osamu Akimoto (秋本治) é o autor do mangá KochiKame, famoso por sua longa publicação na Shonen Jump ao longo de 40 anos ininterruptos, de 1976 a 2016.

Nekohachi: Você gosta de model guns há muito tempo?

Toriyama: Hum… Eu gostava bastante desde o ensino fundamental. Naquela época elas eram de metal preto, o que era bem legal.

Nekohachi: Você lembra da primeira que comprou?

Toriyama: A Chief Special, da MGC. Para um estudante do ensino fundamental na época, era beeeem cara. Eu fiz a maior birra para comprarem pra mim. As outras eu fui comprando com dinheiro de trabalhos temporários.

Nekohachi: Comprava muito por correio?

Toriyama: Não, comprava em uma loja no Unimall, ou na loja de departamentos que vendia produtos da CMC. Era uma dessas duas.

Nekohachi: Se dividirmos entre revólveres e pistolas automáticas, de qual você gosta mais?

Toriyama: (Hesitando bastante) Ah, ambos têm seus prós e contras… Mas eu acho que gosto mais de revólveres— (Fica pensativo de novo)

Nekohachi: E quanto ao calibre?

Toriyama: Gosto dos calibres menores. O máximo de magnum que gosto é o .357. Não sou muito fã do .44.

Nekohachi: Ouvi dizer que você atirou com armas reais nos EUA. Akimoto-sensei estava se gabando disso. Ele disse que todo mundo tentou atirar com o .44 e não conseguiu, aí ele disse “se eu não atirar, ninguém mais vai” e atirou.

Toriyama: O quê! Não foi nada disso, né?

Torishima: Vocês estavam todos empatados.

Toriyama: Eu atirei com o .44 logo depois! E no final, eu estava atirando com uma mão só, de boa.

Nekohachi: Nossa, que incrível!

Torishima: Eu só consegui dar uns 3 tiros com o .44 Magnum…

Toriyama: Eu atirei! Dei uns 20 tiros, e o pessoal de lá ficou tipo “que desperdício” (risos).

Nekohachi: De todas as armas de verdade que você testou, qual foi a melhor?

Toriyama: A sensação de atirar? Um .357, qual era mesmo… acho que o M19? Esse foi o melhor.

Este homem é o impiedoso “Torishima das Rejeições” (editor de Toriyama).

Nekohachi: Voltando ao assunto das model guns, como foi quando elas passaram a ser feitas de plástico?

Toriyama: No começo, confesso que tive um pouco de resistência. Pensei até em parar. Mas depois que você se acostuma, fica de boa.

Nekohachi: Quantas você tem atualmente?

Toriyama: Cerca de 15, eu acho. Não tenho tantas assim.

Nekohachi: Quais são a maioria? Ainda são revólveres?

Toriyama: Não, hoje em dia tenho mais automáticas. É divertido ver o recuo quando você atira, puramente por isso.

Nekohachi: Existem os colecionadores de exposição e os que gostam de usar, né?

Toriyama: Eu faço um pouco de tudo, nada muito fixo. Todo mundo acaba mexendo em tudo um pouco. Mas o ato de atirar é bem divertido.

Nekohachi: Das armas que você tem, a proporção de plástico é grande?

Toriyama: Sim, hoje em dia as curtas são quase todas de plástico. Na época da regulamentação (de 1971), todo mundo acabou jogando as suas fora. Se nos pegassem, seria perigoso. Mas a gente era criança, né? (risos)

Nekohachi: Você tem alguma forma própria de curtir model guns, sensei?

Toriyama: Vejamos… eu tento deixá-las o mais parecidas possível com as fotos das armas reais…

Nekohachi: Raspando e modificando as peças, coisas assim?

Toriyama: Isso. Ultimamente tenho customizado a Chief Special da CMC.

Nekohachi: Qual é o fator decisivo na hora de comprar? O formato?

Toriyama: O formato conta, mas também levo em consideração ouvir o pessoal dizer que a performance do modelo é boa.

“Se me pedirem para desenhar só a Arale-chan, o titio aqui fica em apuros.”

Nekohachi: Mudando de assunto, além de model guns, quais são seus outros hobbies?

Torishima: Videogames, né?

Nekohachi: É mesmo? Não acha que está um pouco atrasado pra isso?

Toriyama: É que só fui jogar recentemente. Não é o tipo de coisa que tenho por perto. Mas logo enjoo deles, sabe? Até que bem rápido.

Nekohachi: E filmes, o que acha?

Toriyama: Eu gosto. Gosto de filmes de guerra. E coisas com cara de ficção científica.

Torishima: Ele não consegue assistir a coisas de romance.

Nekohachi: Ué, por quê? Dá vontade de chorar, ou algo assim?

Toriyama: Não é que dá vontade de chorar. Eu nunca chorei assistindo a um.

Torishima: Acho que a pessoa assiste sobrepondo o filme às suas próprias experiências, né? À sua própria vida. Por isso, se você não tem nenhuma bagagem do passado… (risos).

Toriyama: Não fale coisas desnecessárias!

Torishima: Quer dizer que você não tem memórias? (risos).

Toriyama: Filmes de romance são muito “moles”, né? Eu quero ver coisas como Os Caçadores da Arca Perdida.

Nekohachi: Mas diga uma coisa, não tem mulheres morando por perto? A densidade populacional feminina é baixa?

Toriyama: Perto de mim, só a minha mãe… A minha irmã casou e foi morar com o marido…

Nekohachi: Anteriormente, na página de título de Dr. Slump, tinha uma ilustração da Arale vestida com trajes militares. Você gosta de coisas militares?

Toriyama: Gosto, sim. Aquilo foi porque vi uma edição especial da Combat★Magazine e desenhei.

Nekohachi: Você tem alguma coleção de uniformes militares?

Toriyama: Não, não tenho. Eu gosto, mas não daria para usar, né? Ficaria com vergonha.

Nekohachi: Entendo. E você gosta de outros kits de plastimodelismo? O Akimoto-sensei mencionou que, mesmo ocupado, você costuma montar.

Toriyama: É, eu monto tirando tempo do meu sono. Sou ocupado até demais.

Torishima: Ele precisa dizer que tá ocupado, senão vão adiantar o prazo de entrega dele! (risos)

Nekohachi: Você não costuma desenhar páginas com antecedência para deixar acumulado?

Toriyama: Não consigo. Se não estiver no limite do prazo, eu simplesmente não consigo desenhar.

Nekohachi: Mudando de assunto, o que achou do anime de Dr. Slump? Especialmente a voz da professora Midori, que seria sua mulher ideal?

Toriyama: A voz dela parece um pouco “sensual demais” (risos) Mas acho que, no fim das contas, combina bastante com o que todo mundo imaginava.

Nekohachi: No caso da Arale-chan, ficou perfeita, não acha?

Toriyama: Sim! Totalmente!

Um tiozinho muito simpático, em pleno dia e no meio de um parque, fez até essa pose para os fãs da Combat★Magazine.

Nekohachi: É bem divertido, né? No anime, até a submetralhadora Ingram ejeta as cápsulas dos projéteis direitinho.

Toriyama: Ah, fizeram tudo direitinho, sim! Fiquei impressionado. Além disso, até desenharam as ranhuras do raiamento do cano, o que me surpreendeu bastante. Fiquei pensando que com certeza tem alguém na equipe que curte muito armas.

Nekohachi: Quando o senhor desenha no mangá, costuma olhar materiais de referência…?

Toriyama: Sim. Mas não costumo consultar muitos materiais para o meu mangá. Desenho meio no improviso (risos). Porém, quando se trata de armas, não tem jeito, preciso de referência.

Nekohachi: Ah, então precisa de armas?

Toriyama: É, se eu desenhar uma arma com um formato genérico, ela simplesmente não vai funcionar, né?

Nekohachi: Entendo. É aí que dá para ver a diferença entre gostar e não gostar. A propósito, como você escolhe as model guns que vão aparecer?

Toriyama: Então… Tento escolher armas que não sejam muito complicadas, porque desenhar coisas complexas dá um trabalho danado… (risos). Não tenho escolha a não ser desenhar. Se for uma Ingram, é facinho.

Nekohachi: É mesmo, na página de título tinha a Arale vestida de gangster segurando uma MP5. Aquela era bem detalhada.

Toriyama: Aquilo foi só para a página de título. Na verdade, no começo eu ia desenhar uma Thompson…

Nekohachi: Então você preferiu desenhar uma arma de que gostava mais?

Toriyama: Sim. Ultimamente, tenho achado as coisas da Heckler & Koch muito legais. Sou muito fã deles.

Nekohachi: Seria ótimo se lançassem uma MP5 em model gun em algum lugar.

Toriyama: Se lançarem, eu compro com certeza!

Nekohachi: Bom, para encerrar, como referência: qual foi a matéria mais interessante na C★M até hoje?

Toriyama: Eu gosto daquela… (pensando).

Nekohachi: A página dos leitores? (risos).

Toriyama: Não, aquela matéria sobre a model gun do Yuu Kurogane-san. Foi bem útil, por isso gostei bastante.

Nekohachi: Ah, sério? Ele vai gostar de saber disso.

Nota: Yuu Kurogane é um ensaísta e crítico japonês especializado em armas de fogo e cinema. Desde sua estreia em 1980 com o lançamento da “Monthly Combat Magazine”, ele escreveu inúmeros artigos e ensaios sobre model guns para revistas especializadas como “Monthly Gun” e “Monthly Gun Professionals”.

Toriyama: Eu queria tanto um autógrafo dele…

Torishima: Pega um shikishi e pede um autógrafo logo pra ele.

Nekohachi: Poxa, não sei se ele costuma dar autógrafos… De qualquer forma, não custa tentar pedir, né?

Toriyama: Eu queria muito um.

Nekohachi: Então vou tentar perguntar para ele. Acabou sendo um final meio esquisito, mas muito obrigado por hoje!

Nota: 色紙 (shikishi) é uma espécie de placa de papel enrijecida, muito usada para autógrafos no Japão por sua durabilidade.

 

AGRADECIMENTO:

Muito obrigado a todos pelo enorme apoio e pelas cartas! Vamos presentear 10 pessoas com os botões da Nekohachi e folhas de autógrafo originais desenhadas à mão pelo Toriyama-sensei! Para mais detalhes, confira o Combat★Forum.

 

Mais contexto sobre a entrevista:

As “model guns” (モデルガン) não eram armas de fogo reais. Elas eram, e ainda são no Japão, réplicas não letais, projetadas especificamente para colecionadores e entusiastas devido às leis extremamente rigorosas do país contra a posse de armas de fogo por civis.

Diferente das armas de airsoft (que disparam esferas de plástico), as model guns tradicionais eram feitas para simular com precisão o peso, a desmontagem e a mecânica das armas reais. Elas usavam cartuchos de espoleta para reproduzir o som do disparo, a fumaça e o efeito de recuo do cacho, sem disparar nenhum projétil.

Como o próprio Toriyama menciona na entrevista, nos anos 1960 e início dos anos 1970 essas réplicas podiam ser feitas de metal pesado. No entanto, após uma grande revisão na lei japonesa em 1971, o governo proibiu réplicas metálicas pretas que pudessem ser convertidas em armas reais. A partir de então, as réplicas metálicas tinham que ser pintadas de amarelo e ter o cano totalmente obstruído, o que levou à popularização massiva das réplicas feitas de plástico de alta densidade.

Portanto, quando Toriyama fala sobre atirar com armas de fogo reais nos Estados Unidos, ele destaca isso justamente por ser uma experiência que um civil comum não conseguia ter no Japão, onde sua coleção se limitava estritamente a essas réplicas de plástico e espoleta.

 

EXTRAS:

Caricatura de George Tokoro desenhada por Akira Toriyama e publicada na revista Seventeen em janeiro de 1981.

Para: George Tokoro-sama

Torço fortemente pelo retorno do All Night Suppon!!

Akira Toriyama

Comentário de Akira Toriyama na mesma edição da Seventeen de janeiro de 1981.

Eu sempre ouvia o programa de rádio All Night do George Tokoro enquanto ele trabalhava no All Night Suppon. Agora que saiu do ar, sinto que algo está faltando. Quero muito que o All Night Suppon volte!!

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