Entrevista com Akira Toriyama no Livro das Técnicas Secretas do jogo Dragon Ball Daimaō Fukkatsu

Dragon Ball: A Ressurreição do Grande Rei Demônio – Vitória Certa!! O Livro das Técnicas Secretas!! (15 de agosto de 1988)

Famishin 110: Arco da Viagem Maluca — Visita à Casa de Toriyama-sensei!!

Fotos/Ilustrações: Red Ribbon Nīmi/Kim-Kō

Tradução: @TaikuFuru

 

Uma Viagem Inusitada de Tóquio a Nagoya..!!

 

O trio composto por Kim-Kō, Tetsumaro e Carlos se reuniu na Estação de Tóquio para ir até Nagoya, onde fica a casa do Toriyama-sensei. Como o editor de Toriyama-sensei, Mashirito, e um fotógrafo também estavam juntos, a barulheira era sem fim.

Carlos: Para falar a verdade, é a primeira vez na minha vida que ando de trem-bala…! É incrível ir numa velocidade acima de 200 km/h, né? O coração fica acelerado!!
Tetsumaro: Eu só andei no passeio escolar do ensino médio. Faz muito tempo mesmo! Que empolgante!!
Kim-Kō: Como eu sou de Osaka, ando nisso o tempo todo!!
Mashirito: Entrem logo de uma vez!!

Enquanto conversavam, o trem-bala saiu de Tóquio e se aproximou de Hakone.

Carlos: Oh!! Que lindo!! Monte Fuji, Geisha, Sukiyaki! Maravilhoso, né?!
Kim-Kō: Ah, que turista barulhento!
Tetsumaro: Enquanto o Carlos fazia bagunça, chegamos em Nagoya num piscar de olhos. Certo, agora rumo à casa do Toriyama-sensei, vamos lá!!

É a casa do Toriyama-sensei!! Ele está em pleno trabalho.

Andando de carro por cerca de 30 minutos a partir da Estação de Nagoya, todos finalmente chegaram à casa do Toriyama-sensei!!

Carlos: Ué, este lugar é completamente diferente da Vila Penguim…!! Eu achava que o Toriyama-sensei morava num lugar igual à Vila Penguim…
Tetsumaro: É verdade. Fiquei surpreso por ser um lugar urbano.
Kim-Kō: Olá! Há quanto tempo, Toriyama-sensei!! Desta vez, trouxe esses dois aqui do Famishin. Prazer em vê-lo.
Toriyama: Olá, bem-vindos. Estou um pouco ocupado com o prazo final, mas já estou quase terminando, então entrem e esperem, tá bom?
Kim-Kō/Tetsumaro/Carlos:Certo, com licença!
Kim-Kō: Uau! É o Sasuke! Como você cresceu. É a cara do pai e da mãe! Muito fofo.

Os três, que tinham a mesma idade mental que o pequeno Sasuke de um ano, acabaram fazendo muita bagunça brincando com ele e com as matrioscas de cachorro.

Toriyama-sensei recepcionando a todos.

Mashirito: O trabalho do sensei já está quase acabando, então vocês podem visitar o estúdio dele. Vocês querem ver o sensei trabalhando, não querem? Mas em silêncio, hein!!
Kim-Kō/Tetsumaro/Carlos: Eba! Vamos invadir o estúdio do sensei…!!
Kim-Kō: Sim, aqui é o Kim-Kō. Carlos, Carlos, está ouvindo? Está ouvindo? Câmbio.
Carlos: Sim, aqui é o Carlos. Agora a equipe de exploração chegou à entrada do escritório do Toriyama-sensei. Finalmente, vamos invadir o lugar… Uaaah, que incrível!!
Kim-Kō: O que foi? O que aconteceu? Relate!
Tetsumaro: É incrível! Tem montanhas de kits de plastimodelismo. Também tem uma moto. É um quarto maravilhoso, parece até uma caixa de brinquedos virada de ponta-cabeça. Câmbio.
Kim-Kō: E-Entendido. Então, eu vou até aí agora para tirar fotos de como está o local.
Carlos: É realmente um quarto incrível, né? Eu também queria trabalhar em um lugar assim!
Tetsumaro: Sem chance! Se você estivesse num lugar desses, com certeza não trabalharia e ficaria só brincando.
Carlos: Isso é verdade.
Kim-Kō: Opa, parece que o trabalho do sensei acabou!! Vamos começar a entrevista imediatamente!!

A mesa de trabalho também é uma montanha de tralha… digo, de brinquedos!

Kim-Kō: Toriyama-sense, bom trabalho! O senhor foi bem rápido, hein?
Toriyama: É porque eu adiantei bastante coisa ontem. Além disso, eu sou bem rápido para terminar os manuscritos.
Tetsumaro: Indo direto ao ponto, o senhor chegou a jogar Dragon Ball: Daimaō Fukkatsu?
Toriyama: Na verdade, eu já zerei! Eu e minha esposa terminamos em uns 2 dias.
Carlos: Como esperado do autor original! E então, conseguiu passar sem morrer muito?
Toriyama: He, he, he, que nada… Eu morria ao usar o Kamehame-ha, comia as maçãs, caía da Torre Karin… foi bem difícil!
Tetsumaro: O que achou do jogo?
Toriyama: Me diverti bastante jogando. Ficou bem fiel à história original, mas também trouxe coisas novas que não têm no quadrinho, então deu para jogar no suspense do tipo “o que vai acontecer a seguir?”. E mesmo as coisas inéditas não fugiram do estilo original, então não estragaram a atmosfera. Eu gostei especialmente do ataque Nyoihi-ken do Grande Konpei.

Faltando pouco para terminar o manuscrito, Toriyama-sensei mostra um sorriso relaxado.

Kim-Kō: Os aliados também são divertidos. Como a Arale, que tinha aquele soco leve impressionante. É bem divertido, né?
Toriyama: Hã…?! Como é…?! Dá para usar cartas de aliados?! Nachi, Nachi! (Toriyama chama sua esposa assim) Disseram que dá para usar os aliados!!
Esposa/Mikami Nachi: É sério? Não sabia. Eles entravam para a equipe um atrás do outro, mas não faziam nada, então eu ficava sem entender.
Toriyama: Pois é, eu achava que eles ficavam mais fortes sozinhos, mas no fim não mudaram nada… A Bandai me mandou o jogo antes do lançamento por eu ser o autor original, só que não mandaram o manual de instruções!
Tetsumaro: Hã!? Então o senhor derrotou o Piccolo sem nem usar as cartas de aliados? Que incrível! O senhor é um gênio dos videogames!!
Toriyama: Mas afinal, como é que se usa essas cartas de aliados?
Carlos: É só fazer assim, assim e assado… Aí você consegue usar as cartas de aliados.
Toriyama: Entendi! Agora vou poder jogar mais uma vez.

Toriyama-sensei empolgado falando sobre jogos. Parece estar se divertindo bastante.

Kim-Kō: O senhor gosta bastante de jogos do Famicom, né? O que tem jogado ultimamente?
Toriyama: Jogo de tudo um pouco. Como jogo junto com minha esposa e com meu assistente Matsuyama, jogamos coisas como Tetsudō Ō. Naquele jogo, se você apertar o botão rapidamente enquanto gira a roleta, sempre cai no número 6!
Tetsumaro: Hmm, que observação precisa! O senhor realmente joga bastante.
Carlos: O jogo Momotarō Dentetsu, que será lançado em breve, é um jogo muito divertido do mesmo estilo de Tetsudō Ō.
Toriyama: É o jogo do Sakuma e do Doi, né? Estou ansioso por ele!

Carlos: E aí, que outros tipos de jogos você joga?
Toriyama: Antigamente, eu ia bastante aos fliperamas com o Mashirito, o Sakuma, o Yū-tei e o Miya-ō, mas eu sempre acabava perdendo… era chato. Mesmo hoje em dia, prefiro RPGs e jogos de aventura do que jogos de ação. Eu joguei todos os jogos de Dragon Quest, claro, e também Momotaro Densetsu. Além disso, Okhotsk ni Kiyu foi muito divertido.
Kim-Kō: A Megumi nua, fu, fu.
Toriyama: He, he, he… Bem, de qualquer forma, como sou ruim em jogos de ação, foi uma pena eu não ter conseguido avançar no jogo anterior de Dragon Ball.
Tetsumaro: Toriyama-sensei, hoje em dia o senhor também se tornou muito famoso como o designer de personagens de Dragon Quest. Como foi o trabalho no III?
Toriyama: No III, havia muitos personagens aliados, não é? Eram 8 classes diferentes, e, com exceção do Herói, todas eram divididas entre homem e mulher. Foi bem difícil fazer todos esses designs. Mas a minha imaginação se expandiu bastante, então também foi um trabalho muito divertido. Afinal, o jogo em si é muito divertido.

Pois bem, desta vez mudamos de lugar e decidimos conversar sobre várias coisas, incluindo quadrinhos, enquanto desfrutamos de uma refeição deliciosa no hotel.

Toriyama: Ultimamente muitos hotéis foram construídos em Nagoya, não é? A comida deste hotel tem fama de ser deliciosa…
Kim-Kō: Eu odeio ficar perto da janela! Troca de lugar comigo da janela…!!
Carlos: O que houve…?
Kim-Kō: Eu tenho medo de altura. Quando vejo lá embaixo pela janela, fico com medo. Ah, lembrei de uma coisa! Toriyama-sensei, quando leio sobre a Torre Karin ou o Templo de Kami-sama, fico tonto. Você, que desenha isso, fica bem?
Toriyama: Vejamos. Desenhar é tranquilo para mim. Mas andar de avião, como esperado, ainda me dá medo.
Kim-Kō: Acho que só eu fico tonto de verdade com lugares altos em quadrinhos. Mas quando fomos para Hokkaido juntos eu descobri: quando aquele Sakuma subiu na torre de TV, ele ficou encharcado de suor, fechou os olhos e ficou tremendo todinho. Ah, esqueci que ele tinha pedido para eu não contar isso pra ninguém.

Muitas conversas divertidas até mesmo durante a refeição.

Toriyama: Conheço o Sakuma há muito tempo, mas não sabia dessa história.
Essa foi uma boa história para saber! Mas quando vi na edição nº 14 da Jump (1987) o Osamu Akimoto-sensei subindo em um caminhão de bombeiros (com escada) para o especial de 20 anos, pensei “e se fosse eu…” e até comecei a suar frio.

Carlos: Lendo os volumes de Dragon Ball, notei algo: o juiz do Torneio de Artes Marciais é extremamente suspeito, não acha?
Tetsumaro: Suspeito? Como assim?
Carlos: É que ele é estranhamente estiloso. No Taiyō-ken que o Tenshinhan usou no Mestre Kame, por coincidência ele estava usando óculos escuros e acompanhou bem o rumo da luta. E na hora de verificar a disputa entre Tenshinhan e Goku, ele foi atrás dos dois de um jeito muito legal, sem perder nada de vista!
Kim-Kō: Falando nisso, quando o Kuririn foi morto, o juiz que foi atacado junto com ele conseguiu ficar são e salvo.
Carlos: Toriyama-sensei, esse juiz não tem algum segredo escondido…?
Toriyama: Hmm, é pensar um pouco longe demais, mas você está num bom caminho!
Carlos: Hã?! Que legal!

A noite em Nagoya vai caindo, mas a conversa não acaba…

Toriyama: Não é que eu tenha decidido a história em detalhes, mas aquele juiz é alguém que deixei guardado caso precisasse de um papel importante mais para frente. Pensei que talvez ele pudesse aparecer no final do torneio dizendo algo como “Eu sou o último desafiante!”, ou que poderia usá-lo de outra forma, por isso o fiz com um visual maneiro.
Carlos: Entendi.
Esposa/Mikami Nachi: Mas isso seria um pouco clichê, não é?
Toriyama: É, por isso acabei desistindo dessa ideia. Mas como a gente ganha a vida com quadrinhos, especialmente os serializados,, temos que pensar em várias alternativas para o caso de acontecer algo ou se a história ficar travada.
Kim-Kō: Eu esqueci de perguntar antes… como é que surgiu Dragon Ball?
Toriyama: Como dá para notar pelo nome do protagonista ser Son Goku, este é um quadienho que tirou inspiração da história de Jornada ao Oeste. Eu queria desenhar uma história ambientada na China ou com esse estilo.
Tetsumaro: Mas em Dragon Ball não tem tantas coisas baseadas em Jornada ao Oeste, não é? O Oolong é parecido com o Cho Hakkai, mas não tem o Sa Gojō, por exemplo.
Toriyama: Esse papel era para ser do Yamcha, mas ele acabou ficando com uma personalidade completamente diferente. E transformar o monge Sanzō Hōshi na Bulma também ficaria estranho.

Na parede, junto com as estantes, há caixas de kits de plastimodelismo empilhadas. Será que os designs incríveis de máquinas nascem de um lugar assim?! É simplesmente uma montanha de plastimodelos.

Carlos: Só sobrou o Rei Cutelo, a Nuvem Voadora e o Bastão Mágico!
Toriyama: Você sabe bastante! Por isso acabou virando uma história totalmente diferente. Especialmente depois que inventei a ideia de reunir as 7 Esferas do Dragão para invocar o Shenlong e realizar um desejo, passei a criar a história ignorando completamente o fato de ser algo baseado na China ou em contos antigos. Eu também não fico pensando muito no que vai acontecer daqui para frente. Tento não planejar com tanta antecedência.
Kim-Kō: É sério?! Conseguir criar um quadrinho tão bom trabalhando assim prova que o senhor é mesmo um gênio. Para encerrar: qual talento o senhor acha necessário para se tornar um quadrinista?
Toriyama: Acredito que seja a sensibilidade artística. Pessoas assim criam bons quadrinhos. E também ser pragmático. Pessoas que se deixam levar pelas próprias emoções não servem para isso. Mesmo desenhando histórias bobas, você precisa ter um lado frio e analítico para se observar criticamente.

Acredite se quiser, tem até uma moto dentro do seu escritório. É realmente um local de trabalho que parece uma caixa de brinquedos!

Foi uma conversa extremamente proveitosa. Muito obrigado, sensei!

 

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